LUGAR DE FELICIDADE

Caminhando pelo bairro, absorta em devaneios, nomeio as ruas, uma após a outra. Visito os arquivos da memória, ora observando o céu, ora olhando a fileira de portas e portinholas das casas, quando deparo com o letreiro decalcado nos vidros de uma vitrine simples: “Luthier – fabrico e reparo instrumentos de corda”. Alguns instrumentos se debruçam sobre a fachada. Penso: qualquer hora volto aqui para entender melhor do que trata.

Sei lá por que, imagino que vou encontrar um velhinho de longas barbas brancas, bochechas rosadas, óculos redondos na ponta do nariz, com sotaque italianado, de nome Gepeto.

Enfim, me decido. Entro. Encontro o jovem, que se apresenta como Elielson Rodrigues. Pergunto se seu avô está. Ele sorri, com dentes de um branco translúcido, das claras manhãs de sol às margens do rio Madeira, onde sua história brota. Enigmático. Parece não se deslumbrar com nada. Aparenta calma, mas se percebe uma turbulência interna que ressoa vibrante como as cordas dos violões que constrói milimétrica e atentamente.

Herança indígena

O cabelo liso de um preto brilhante. A pele castanho-dourada, típica de seus ancestrais Karitiana, tribo que vive no quilômetro 50 da BR-364, no ramal da Conga, norte de Rondônia, região do Abunã. Única remanescente da família linguística Arikém. O exclusivismo faz brotar a realidade: o pronome da primeira pessoa do plural inclusivo yjxa, nós, também traduzido como gente. Assim se denominam. Em oposição aos opok (não índios) e aos opok pita(outros índios).

Nascido em Maravilha, a uma semana de barco da capital Porto Velho, onde as brincadeiras na floresta fundem sua realidade. Orientado pelos pais, tios e avós para escolher o que podia ou não comer. Cupuaçu, goiaba, biribá (fruta do conde) e mandioca branca eram permitidas. Murici e mandioca roxa? De jeito nenhum.

A precoce familiaridade com as madeiras, como caxeta, macacaúba, pau-rainha, muirapiranga e freijó, foi imprimindo em seu DNA a expertise para o futuro ofício. O avô construía rabecão, violão e viola de cocho. E o lazer era passar o conhecimento para os filhos e netos, se embrenhando na floresta com eles.

Depois a família se mudou para Porto Velho e ia para o sítio só nos fins de semana. Aprendeu a andar de bicicleta. Praticava bicicross e skate no Skate Hell Park.

Aos 13 anos, já construía skates e se exibia no Campeonato Nacional. Assim conheceu o Paraná, São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Sua jornada como mochileiro pela vida afora começou aos 17 anos. E não parou mais, até aportar em São Paulo, há quatro anos.

Foi para a Chapada dos Guimarães, Florianópolis, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador. Depois para a Chapada dos Veadeiros, Chapada dos Guimarães, Chapada Diamantina, Porto Velho, Morro de São Paulo, Manaus, Acre, Manaus, Chapada dos Veadeiros, Manaus, São Paulo, Manaus, Porto Velho, Curitiba, Amazônia, Curitiba, Resende, São Paulo, ufa!

Escassas relevâncias à paisagem e a objetivos que não constituem cenário permanente, mas presenças acidentais, furtivas e efêmeras. Vai adquirindo habilidades. Colecionando amigos. Cenas que não exibem uma ação específica e sim uma atividade serial. Reincidente. Um hábito. Um costume.

A voz do sangue. E de Deus

A herança espiritual veio da tia Maria Cândida, que ele traduz em sua mais completa definição: compreensão. Lembranças doces de uma mulher de olhos claros, cabelos anelados castanho-claros, que sempre lembrava aos sobrinhos de “fazer o bem sem olhar a quem” e que “o amor deve ser como o sol a brilhar sobre todos”. E presenteava com lata de goiabada e outra de creme de leite um por um dos meninos, para adoçar a boca deles. Outra afluência foi do tio Silas, um bicho do mato. Bem caboclo. Conversador. De tudo dava risada. Batalhador. Sempre disposto a ajudar os outros.

Aos 18 anos, em Porto Seguro, BA, se permite o abandono à própria sorte. Psicoativos e rock and roll!

A história se detém para que uma voz divina se instaure. A visão de uma rajada de luz irradiante. Desce uma figura masculina, com túnica de um branco brilhante e turbante, que lhe diz ter um potencial muito raro. E que, se não utilizá-lo, terá de abreviar seus dias na Terra.

Ferida que quer sarar. Um aborrecimento com a realidade tão insensata, que busca destruí-la. Para reconstruí-la. Que aparenta recriá-la. Quando, no fundo, quer aboli-la.

Se internou na mata, entre Porto Velho, Amazonas e Pará. Orando e jejuando por sete dias. Queria um aval para desencarnar. Pela segunda vez, vê o seu mestre. Tem a visão de um templo de pedras na forma de iglu. Ele se vê entrando e saindo de lá com um instrumento cada vez.

Soma de noites. Palavras que fazem as vezes de pincéis, com a responsabilidade de traçar as formas e revirar os conteúdos.

Pela terceira vez, em Manaus. Sem saber para onde ir. A luz reaparece. A história se move, mas não avança. Gira sobre o lugar. É a repetição. Volta para o ninho em Rondônia. Lá está Alessandra, à sua espera para consagrar a história inacabada de dez anos atrás, que fez florescer Amanda, a primeira filha.

Não é mais um jovem tímido, é um varão amadurecido e certo de amar.

Ambos se acercam de seu futuro juntos. Casam-se e vão a Curitiba tratar de aumentar a família. Hoje, com mais duas filhas: Raíssa (a cara da mãe) e Yasmin (a cara do pai).

Seres sonhados ou inventados. Filhos da emoção. Da cumplicidade. Da parceria. Estilização momentânea da realidade objetiva.

A lutheria, missão de vida

Luthier, palavra de origem francesa, quer dizer alaúde. Remonta aos primórdios das antigas civilizações, com seus sons que carregam a energia dos antigos trovadores na iniciação dos jogos de amor.

No olhar límpido que transparece os rios Madeira e Mamoré inunda a inteligência e o poder de comunicação. Embora nem sempre diga o que lhe vem à cabeça.

Começa a trajetória de artesão profissional no Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Depois em joalheria, em Diamantina, MG. No Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), em Piracicaba, SP. Depois na OELA (Oficina Escola de Lutheria da Amazônia), com o professor Rubens Gomes, que lembra, sorrindo, se assemelhar ao meu velhinho imaginário do início desta história.

Na Chapada dos Veadeiros deu aulas na OCA Brasil. Em Bragança Paulista faz um curso intensivo de seis meses na Faculdade de Educação Saulo Sandro, da USP: Investigação de Métodos Experimentais para Análise Modal de Violinos. Depois em Tatuí, SP, no Conservatório Dramático e Musical, se especializou na construção de violinos.

Elielson discorre sobre o que é a busca de qualidade sonora. O volume. O timbre extremamente equilibrado na tessitura da voz. “Na construção de instrumentos, não dá tempo de pensar em fazer mal a alguém”, situa. E cita Beethoven: “A música é capaz de reproduzir, em sua forma real, a dor que dilacera a alma e o sorriso que inebria”.

Conta que certa vez desceu o rio Negro, lá para as bandas do arquipélago de Anavilhanas, com um caboclo e uma motosserra. À procura de madeira nobre, saboarana. Derrubam a árvore. Partem-na em xis, para ficar mais leve e levar no barco. O corte é radial. As fibras paralelas ajudam na propagação acústica. Depois tem a estufa. Tem que deixar secar por dois anos. A serra corta a lâmina necessária para construir: 50 centímetros de comprimento, 22 centímetros de largura e 5 centímetros de espessura. Hoje já está mais prático. Compram as lâminas prontas.

Faz então o desenho. Copia de algum construtor famoso ou cria seu próprio design. Depois a forma. Começa a trabalhar a madeira nas dimensões necessárias que o instrumento carece. Tampo pronto, fundo pronto. Vai para as laterais. Para fazer a lateral, molha. E, depois, passa a chapa de ferro quente. As células vegetais incham de água e ficam mais macias. Curvou. Deixa na forma três dias.

A cola é de cartilagem de peixe e osso. A boca está relacionada com o timbre. Mais aberta, mais grave. Mais estreita, mais agudo. Os vernizes especiais auxiliam no índice acústico.

Sua alma cigana dá o tom, ao som de Paco de Lucía. Rebelde. Observador glacial e preciso. Ausência eloquente.

Quer tornar a vida grande. Fazer sentido no mundo que tem percorrido como cavaleiro andante. O gosto pelas sombras da floresta o trouxe até aqui, Sampa, a selva de pedra. Onde ele, apesar do concreto, da poluição, da correria transforma a lutheria em seu lugar de felicidade. E vive o sonho nesta dura realidade encontrando nexo em seu próprio paradoxo yjxa-nós, e na dos “outros índios” e na dos “não índios” desta selva cósmica.

Dá vida à sua obra, em busca do som perfeito, assim como Gepeto.

www.jornalirismo.com.br/jornalismo/14/1283-lugar-de-felicidade

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