PADECENDO NO PARAÍSO Shellah Avellar

Ilustração: Shellah Avellar (acrílico sobre tela)

Depois de exatamente 21 anos e 9 meses, ainda me pergunto: que sentimento é este, que, por vezes, libera a endorfina, noutras, nos leva à loucura?

Quem é esta persona plural que está ali e não se mostra, delineando tal aura inquietante?

Ubiquidade, Onisciência e Onipotência são seus atributos.

Carrega sobre os ombros as grandes decisões táticas e os planos temporais, em que cada episódio ou fase destes filhos de Deus são situados.

Observadora glacial e precisa, se confunde com o sujeito amado. Ilumina e obscurece as condutas dos elementos nos instantes oportunos.

Lava, limpa e passa.

Embala. Agasalha. E alimenta.

Trabalha! Trabalha! Trabalha!

Atrapalha e se atrapalha.

Às vezes se ausenta, para se tornar presente.

Estouvada. Indispensável. Distraída.

Peca quase sempre pela intrusão, quando as expansões líricas dão lugar à formatação matemática da natureza humana.

Esculpe parâmetros morais, políticos, religiosos e metafísicos, dentro dos quais se movimentam os homens e mulheres do planeta.

Vai batendo eternamente este bolo exótico, combinando ingredientes, misturando receitas, reinventando a alquimia e estruturando o mundo das ideias e das crenças a partir dos quais se julga e realiza o bem e o mal.

Acerta e se equivoca. É vil e nobre. Comum e insólita. Conformista e rebelde.

Arranca suas raízes, a fórceps, “cesariando” ou naturalmente, do virtual para o real.

Faz a ambiguidade virar certeza. E a certeza se torna dúvida num átimo de segundo.

Que é esta entidade que baixa quando nos percebemos grávidas?

Estes nove meses nos põem em contato com uma “humanidade abstrata”, depurada do Homem propriamente dito?

Por que experimentamos sensações que de outro modo seriam absolutamente impossíveis?

Fariam até Descartes e Spinoza concordarem num único ponto: tudo que acontece no corpo produz-se igualmente na alma. Ou produz nela alguma coisa de irreal? Uma ideia? Um sentido?

Produz, sim! Esta semente. Esse ser semelhante a nós. E tão dessemelhante! Um cataclisma de átomos em vias de se projetar para fora, como um surto de esperança num futuro que ainda não existe.

Quem é que neste momento único toma forma, num cenário de solenidade e abstração?

Agonia e êxtase se misturam e gritam: Mãe!

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