TUDO O QUE SEU MESTRE MANDAR Shellah Avellar

Escondidos em meio à vegetação da floresta, observávamos a anta que bebia à beira da lagoa. Suas costas estavam feridas, fundos cortes onde o sangue ainda se via. O guia explicou: “A anta é um animal apetitoso, presa fácil das onças. E sem defesas. Contra a onça ela só dispõe de uma arma, estabelece uma trilha pela floresta, e dela não se afasta. Este caminho passa por baixo de um galho de árvore, rente às suas costas. Quando a onça ataca e crava dentes e garras no seu lombo, ela sai em desabalada corrida por sua trilha. Seu corpo passa por baixo do galho. Mas a onça recebe uma paulada. “E assim, a anta tem uma chance de fugir”

Acho que a educação frequentemente cria antas: pessoas que não se atrevem a sair das trilhas aprendidas, por meio da onça. De suas trilhas sabem tudo, os mínimos detalhes, especialistas. Mas o resto da floresta permanece desconhecido. Pela vida afora vão brincando de Boca De Forno.”  Rubem Alves

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Vivemos um momento inédito de mudanças e o conservadorismo e o retrocesso vêm como uma trombeta que anuncia um editorial do adeus às conquistas de direitos.

Vivemos mesmo estranhos tempos. Fala-se tanto em liberdade e nos amarramos cada vez mais em intrincados modelos tecnológicos que zombam da política de esquerda.

Não há como ter confiança alguma nos homens que a “força política” vigente se nos impõe.

Não há como acreditar nestes homens, quer nos falem de armas, quer de liberdades, uma vez que só conhecem a liberdade de receber proventos. E, com os quais não podemos fazer alianças, porque só nos deixam escolha entre a mentira e a baixeza.

Não há como esperar que se cumpra a Justiça, porque foi corrompido o sentimento da verdade, da equidade e da humanidade colocado acima das paixões humanas.

A Deusa Themis foi violada e sua venda é muito menos para espelhar a isenção e sim para “fazer vista grossa” ao bel prazer de alguns de seus emissários.

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Está liberada a dupla máscara do bufão e do lacaio, da delação e da traição. Carrega em seus ombros as dores cujas marcas são infligidas em seu nome.

Entretanto este ruído que ecoa de vários pontos do Planeta e esta angústia que vem engrossando uma horda de rancores e ódios, podem tornar-se o canto de uma terrível colheita.

Estamos no século XXI, no terceiro milênio, o que poderia ser absolutamente fantástico e é, se considerarmos alguns progressos em várias áreas do conhecimento e tantas vitórias nos campos tecnológico, virtual, eletrônico e nuclear.

Os cientistas estão absolutamente fascinados com as inúmeras possibilidades de proporcionar melhores condições de sobrevivência ao ser humano.

E o ser humano está cada vez mais interessado em consumir e se alienar dos “problemas nossos de cada dia”, nos entorpecentes de várias cores e sabores, cada vez mais sofisticados para nos deixar cada vez mais dependentes químicos dos prazeres das vitrines da vida.

E nós, brasileiros, nos deixamos ser ninados na zona de conforto das redes do “gigante adormecido”.

Poluímos nossos rios, lagos e mares e abusamos de nossos recursos hídricos como se fossem inacabáveis.

Devastamos florestas e depredamos plantações e dizimamos nossos indígenas como se fosse lógico.

Matamos nossos negros e negras todos os dias nas favelas, subúrbios e periferias.

Assediamos e violentamos nossas meninas e mulheres como se fosse natural.

Brigamos e exterminamos por conta da falta de respeito à diversidade de times de futebol, de ideologias de gênero, de discriminação de raça, de partidos políticos, de credos religiosos e de classes sociais, como se fosse óbvio.

Mas, como trazer para o aqui e agora essa nova realidade avassaladora?

Por que nos deixamos ligados no “automático” e que “seja o que Deus quiser”?

Se pararmos um momento para uma breve reflexão e olharmos para nossos desgostos viscerais e nossas escolhas radicais, veremos que não somos tão diferentes assim, no “entre si” de nós mesmos.”

Se observarmos o conjunto sistêmico de nossa família, poderemos concluir que ali naquele pequeno universo já se delineiam as diferenças e algumas irreconciliáveis.

Carregamos estes preconceitos e estereótipos para o nosso trabalho, nossas relações emocionais e nosso grupo social.

E, por conta destes recortes vai se estabelecendo a guerra ou a paz, segundo nossa capacidade de absorção da realidade, de nossa autoestima e de nossa habilidade em negociar, aceitar ou refutar os diferentes pontos de vista.

Se temos consciência disto, o fardo fica mais leve. Se não, podemos arrastar uma vida inteira de desavenças, amarguras e silêncios inquietantes que resultam em doenças e traumas.

E, ao não tomarmos posse da boa administração destas diferenças, alguém mais esperto e atento, fá-lo-á por nós.

E, assim, desde que o mundo é mundo, pelo que entendemos e estudamos ao longo das civilizações se estabelece o poder. E assim se estabelece quem manda e quem obedece.

Porque fomos educados para competir e não para compartilhar. A afirmação de sucesso é exibir cada conquista como se fosse única e ímpar.

Desde os primórdios do Egito cuja civilização manteve a hegemonia por quatrocentos anos no poder, uma vez que os casamentos aconteciam na própria família e esse sistema   inexpugnável se estendia às outras civilizações paralelas.

Mas, afinal qual o motivo de trazer aqui estes fatos que certamente já são familiares aos experts de história e ciência política?

Porque estamos vivenciando um momento sui generis na história da humanidade. Mas, como a Terra é redonda e gira no espaço ao redor do Sol, embora haja controvérsias absurdas ultimamente. As coisas voltam e, por vezes a vida imita a morte.

Desde o genocídio de judeus por Adolf Hitler, líder do Partido Nazista, Ditador do Reich e Führer da Alemanha de 1934 até 1945 e principal instigador da Segunda Guerra Mundial na Europa, não se percebia com tanta clareza, um movimento de possível horror com alguns elementos de similaridade.

Hitler era um ídolo fabricado por Paul Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda, que rapidamente conseguiu o controle absoluto da imprensa, arte e informação na Alemanha. Se utilizou do rádio e da produção de filmes para propagar a devoção por Hitler e o antissemitismo, bem como ataques ao bolchevismo e a tentativa de moldar a moral até instigar a segunda guerra mundial.

Ora, ora, todos nós sabemos que a publicidade e a propaganda elegeram Goebbels como gênio da manipulação das massas.

Mal sabia Marconi, que sua invenção para facilitar a comunicação entre embarcações se tornaria uma ferramenta poderosa para Goebbels e Mussolini em 1925.

Getúio Vargas também se utilizou do mesmo em 1930, institucionalizando a Hora Do Brasil. E Franklin Roosevelt em 1933.

Embora desde sempre se tenha trabalhado o poder da oratória e o carisma dos presidenciáveis e outros políticos, isto passou a não ser suficiente nos novos tempos.

E, como tem se desenhado o cenário das eleições desde 1952, quando o general Eisenhower contratou a agência BBDO para cuidar de sua imagem durante a campanha eleitoral.

Isto tudo aliado a pesquisas quantitativas e qualitativas de Institutos de pesquisa de opinião pública e estatística têm regido as campanhas que se digladiam a cada período eleitoral, bem como as guerras de marcas por pescar cada vez mais “consumidores” para seus produtos.

Mas, ainda assim, uma vez terminadas as eleições, se o exercício é democrático, todos os lados se arrefecem e dão uma trégua e cada um exerce o lugar de posição ou oposição com uma certa harmonia.

Entretanto, enfrentamos um diferencial nesta corrida eleitoral.

Estamos diante de um espetáculo de alianças muito bem articuladas para um Golpe de Mestre.

Há uma inteligência extremamente consciente e especializada no observatório por detrás do cenário.

Temos um “produto” totalmente destrambelhado mas muito bem “embalado”.

O Brasil sendo estudado há alguns anos. Nossa terra. Nossas riquezas. A docilidade e a hospitalidade do povo do samba, do suor, da cerveja, do futebol e das crenças religiosas.

Chamou a atenção da mídia internacional, um líder, intelectual orgânico, com grande poder de persuasão junto aos pobres e oprimidos. Com o apoio dos intelectuais, dos artistas, da Esquerda e da Igreja.

E agora, alguém que sabe o que faz e faz bem está no comando. Vamos fatiar os tipos que consomem o estranho líder.

Qual sua classe social, suas preferências, seus partidos, seus times, suas cores, seus ideais e suas mágoas.

Vamos desconstruir o líder e fabricar um outro, “fácil de ser manipulado”. Vamos dar a alguém de baixa autoestima um ilusório poder de comando. Enquanto isto nós nos articulamos com poderes internacionais nos quatro cantos do planeta.

Já identificamos as fragilidades da esquerda e principalmente suas potencialidades.

Copiamos e invertemos o jogo.

Compramos informações das várias fontes de várias “fábricas de perfis” tais como Facebook ,Instagram e Google.

Compramos o marketing digital dos whatsapp, hangout e twitter,já devidamente programados segundo os perfis de nosso eleitorado. Sabemos de suas preferências e aversões.

Vamos preparar um discurso para cada grupo fazendo emergir neles seus preconceitos escondidos. Através de um discurso vago. Pela empatia, vamos alimentá-los com o próprio engano e o propagando. Fazendo-os acreditar que existe remédio para a falta de sentido.

Vamos estimular o córtex pré-frontal ventromedial, situado no lobo frontal, que é “centro crítico” na representação de sistemas de crenças, fabricando informações falsas e obtendo adeptos com técnicas utilizadas nas Igrejas Neopentecostais e outras religiões fundamentalistas e no treinamento de kamikazes.

Vamos “quebrar as pernas dos artistas” que sempre se estabeleceram contra nós, cortando os patrocínios, editais e ministérios de Cultura, bem como os espaços de exibição do Sistema S(SESC, SENAI, SESI e SENAC)para que fiquem sem trabalho e sem voz.

E tudo em nome de uma nova ordem mundial e articulações com os Estados Unidos e a Rússia, promovendo guerras consentidas na América Latina colocando irmão contra irmão.

Vamos entregar de bandeja nossas riquezas e deixar “o circo pegar fogo”, estimulando os nossos adeptos a fazer por nós “o serviço sujo”.

Enquanto os “peixinhos caem na rede”, vamos endurecendo leis, anulando a educação, aviltando a saúde e encurtando privilégios até que sejam todos “infelizes para sempre”.

E, nós, diante do jovem insolente, com revólver no bolso evocamos a não-violência de Gandhi, para poder deixar falar o silêncio.

Mas a nossa indignação, a nossa criatividade e a nossa alegria vão encontrar alternativas para desmascarar o blefe.

Permanecerão vivas as artes e a literatura contra o deserto das páginas brancas.

Há de se erguer um domínio do espírito e da sensibilidade completamente em movimento, em novas relações e novos renascimentos.

Exorcizaremos os demônios da ignorância e da tragédia anunciada com a Arte, e com as guerrilhas da solidariedade e com ela desvendaremos o enigma da manipulação e nos inscreveremos na história traçando um novo arco do triunfo da verdade.

E, ao invés de fazermos tudo o que “Seu Mestre Mandar”, nos transformaremos em  nossos próprios mestres.

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