De repente, tudo era escuridão. As cores foram se desbotando até se perderem no zoom-in de um tempo sem nenhum lugar. O tênue limite entre Céu e Terra se esvaiu numa fumaça bolorenta. O chão se fez lodoso, e a aridez tomou conta de tudo.
Já não havia formas, somente projeções de sombras da sombra propriamente dita.
Não havia som.
A explosão do início, repetiu um Big- Bang às avessas, implodiu o Planeta, as galáxias e as estrelas e o universo inteiro até se afundar num buraco negro.
Não havia mais identidade
Perderam-se as referências. Era apenas um deserto de almas penadas.
As letras despencavam aflitas. As vírgulas se contorciam sem direção.
As exclamações se amuaram. As interrogações desistiram das respostas.
As figuras de sintaxe se esfacelavam invertendo as elipses, zeugmas e hipérbatos.
As metáforas confundiam os sentidos figurados e a verdade.
Sujeitos foram envenenados e verbos ficaram sem objetos diretos.
As fitas do DNA das palavras se dissolviam numa sopa de ignorância absoluta.
Artistas, professores, escritores e intelectuais num átimo de desespero tentavam ressuscitar a criatividade.
Heróis, mitos, bandidos e malfeitores trocaram de personalidade e se fundiram numa coisa só, desconstruindo ilusões de um final feliz.
Aventuras e ficções se tornaram uma realidade apocalíptica.
As histórias se metamorfoseavam em estórias retratando apenas anti-memórias e as fábulas faziam triunfar o diabo e suas armadilhas.
O átomo se desintegrou, engolindo as partículas, contrariando Newton, relativizando Einstein, e deixando a ciência, nos limites do perplexo.
Finalmente o mundo era uno, sem diversidades.
Lá se foram as tradições e as castas. A oposição deixou de ter sentido. A subtração odorífica, deu lugar à insipidez. E a solidão se fez presente, inundando os restos de nossa possível esperança.
Signos, sinais, sentimentos e pensamentos queimavam num inferno sem chamas e sem calor.
Flutuando no vazio de mim, me permiti experimentar a desistência. Simplesmente me morri, quando O FASCE sentenciou:
– “A partir de agora, a Literatura deixa de existir.”
A palavra “fascismo” vem do italiano fascio, que significa “feixe”. Na Roma Antiga, O FASCE (versão em latim da palavra), era um machado revestido por varas de madeira. Ele geralmente era carregado pelos lictores, guarda-costas dos magistrados que detinham o poder. O FASCE era um símbolo de autoridade e união: um único bastão é facilmente quebrável, enquanto um feixe é difícil de arrebentar.
Conheci pessoalmente Audálio Dantas 17 de agosto de 2013, na FNAC Pinheiros, no Lançamento do projeto Entrevista Aberta de Guilherme Azevedo, do Portal Jornalirismo. Tive a oportunidade de lhe fazer tantas e tantas perguntas sobre seu livro As Duas Guerras de Vlado Herzog e também sobre sua trajetória no Jornalismo e na luta pelos Direitos Humanos.
Menina ainda, nos anos 60, no Rio de Janeiro, já tinha lido, na Revista Cruzeiro sobre sua “descoberta” Carolina de Jesus e seu Quarto de Despejo.
E nos Anos 70, na Revista Realidade sua matéria Povo Caranguejo sobre os Catadores de Caranguejo do Mangue da Aldeia Livramento na Paraíba.
Nem eu mesma tinha noção da importância daquele momento histórico, até começar a entrevista. Debatemos sobre Jornalismo Literário, minha paixão, até que finalizei a entrevista com uma última pergunta.
-E se Vlado Herzog, estivesse aqui agora, qual a pergunta que você gostaria de ter feito, e deixou de fazer a ele?
Audálio parou, e seu silêncio grave, durou um minuto. Respirou e disse: -Você faz muitas perguntas difíceis…(todos rimos)
E ele respondeu: Vlado,por que você disse à Repressão que não era comunista, no seu interrogatório?
E eu disse: -Você já respondeu a esta pergunta, quando deu ao seu livro o título de AS DUAS GUERRAS DE VLADO HERZOG.
Ele disse:-Como assim?
Respondi:-Talvez porque já tivesse fugido de uma guerra, e agora enfrentando mais uma, na própria pele dilacerada, e de sua impotência frente a uma realidade brutal, tenha sentido medo. E o desespero pode provocar reações imprevisíveis.
Ali encerrou-se a entrevista e começou uma profunda amizade de respeito mútuo.
Daí, já nos frequentávamos. Conheci sua família linda, Sua esposa, a guerreira Vanira Kunc. Sua doce e talentosa filhotinha Mariana e a portentosa Juliana que lhe seguiu os passos. Bem como os filhos de outro casamento e de seus leais amigos .Estive presente em vários lançamentos e comemorações familiares e de honra a seu reconhecido mérito.
Mas, nada se compara à sua indicação ao prêmio Averroes 2017.
Em duas etapas. O dia da comemoração da indicação e o dia da entrega propriamente dita.
A mais perfeita tradução destes eventos é a seguinte: Um festival de Afetos.
Lá estavam pessoas que realmente lhe amavam e reverenciavam.
E, mesmo os que não se conheciam, sorriam uns para os outros, confraternizavam e se abraçavam por respeito a você.
Pensei comigo, estar aqui, no meio de tantas cabeças brilhantes, olhares límpidos e sorrisos largos era por si só uma revolução: A potência da Palavra em Ação.
E, então, ao final, me aproximei para dar um abraço e um “até breve”.
O guerreiro estava descansando da festa de entrega do prêmio Averroes.
Eu disse: – Pode ficar aí sentadinho!”
Daí ele se levantou e falou:-Um bom abraço se dá de pé!”
E, foi nosso último abraço terreno.
Entretanto o abraço cósmico se eternizou naquele momento, porque não sabíamos que seria o último.
Nos reencontramos no auditório do Sindicato dos Jornalistas, sua casa maior, em maio de 2018.
E, junto a sua família e aos seus amigos fiéis, numa tarde triste, de mãos dadas numa ciranda ao seu redor, sob a foto de Vlado Herzog, e sob um céu que não era o de Luiz Gonzaga, se deu a despedida oficial, meio ao burburinho dos profissionais de Comunicação e do Jornalismo que você tanto amou e que lhe trouxe tantas alegrias e desapontamentos.
E, hoje, quando você completaria 91 anos, aqui vai o meu abraço.
Em plena quarentena, face a uma pandemia sem precedentes na história da humanidade, sob a chibata de um fascismo mascarado de Democracia. Aquela mesma, nossa velha conhecida, sempre ameaçada de morte ao longo das civilizações.
Permanecemos todos de pé, ainda que com o coração partido e os pés sangrando.
E, sim, querido camarada Audálio.
O nosso grito é o seu grito.
E, embora o povo se arraste ,neste momento infernal, por uma uma onda de estultícia e embrutecimento , a Liberdade criadora modela a natureza e a delicadeza exalta o sublime .
Feliz Aniversário!
ps: agora você já deve ter tido a resposta do Vlado, à sua questão, ao vivo e em cores do outro lado da vida.
Imposição de dor física ou psicológica por crueldade, intimidação, punição, para obtenção de uma confissão, informação ou simplesmente por prazer da pessoa que tortura
(Acrílico sobre tela 4Ox40)São 4 telas(20×20) k podem ser remanejadas, mostrando as várias possibilidades de diálogo entre as quatro raças humanas.(ainda ñ finalizada)
Transformar la sociedad parece que ya no nos interesa.
Una poética de los actos extensiva a la comunidad humana es apenas metafísica individual.
Somos hojas al viento, precarias, sometidas a las presiones de fraudes, abusos de poder e injusticias.
Quizás una foto amarillenta de una resolución política motivada por la solidaridad a las víctimas de las injurias.
Es un parto con fórceps, en la ilusión de que nuestra carne desgarrada sufra el dolor de los demás.
De repente, entramos en un estado letárgico en el que nada más se espera del Hombre.
Y entonces, del silencio de los nativos del planeta Tierra, he ahí el grito primario de África-Madre.
El primer toque de tambor.
La sonrisa blanca y brillante de las bocas carnosas.
Los iris centelleantes de sabios encantados.
Deidades míticas de mantras arcaicos.
Piel que refleja un ébano azulado.
Preciso contoneo de caderas y cinturas afinadas.
Pies que parecen levitar en un compás-contagio.
Pisando lodo, puliendo piedras y asentando polvo.
Miles de pequeñas vidas sin importancia.
Desapareciendo, aplastadas por otras vidas.
Hierbas viscosas rezuman hojas exuberantes, en calderos de fuego ardiente.
Corazones en tinieblas se pudren fuera de la vista del Mundo Blanco.
En las brechas de soles de sangre, en medio de la confusión de formas y sombras.
¿Qué acto humano tiene sentido en las sabanas?
Hormigas invadiendo los tallos porosos.
Ojos fosforescentes fijos en la eternidad.
Rápidas ráfagas de pájaros.
Pantanos y hongos en el umbral de los bosques, que desbordan lo siniestro.
Un sonido invade nuestra anima y animus.
De los tambores ancestrales de dura negrura resuena la angustia de una raza.
Que escribe un raro libro de infancia en la cuna de la raza humana.
Y aquí, esta joven señora horrorizada, sin una palabra adecuada, agoniza entre lo brutal y lo vacilante.
Que entre escribir y actuar, se hace necesario “no esconderse”.
Desde los confines del horror del Prejuicio, remueve el lodo infeccioso y disfraza la ironía de que sin las perlas negras jamás habría sonidos, colores y alegría.
Escuche también “Ébano” de Luiz Melodia
THE COLOUR OF EBONY. Shellah Avellar
Transforming society no longer seems to interest us.
A poetics of acts extended to the human community is hardly individual metaphysics.
We are leaves in the wind, precarious, subject to the pressures of fraud, abuses of power and injustice.
Perhaps a yellowed photo of a political resolution motivated by solidarity with the victims of insults.
It is a birth with forceps, in the illusion that our torn flesh suffers the pain of others.
Suddenly, we enter a lethargic state in which nothing more is expected of Man.
And then, from the silence of the natives of planet Earth, there is the primal cry of Africa-Mother.
The first drumbeat.
The bright white smile of the fleshy mouths.
The sparkling irises of enchanted sages.
Mythical deities of archaic mantras.
Skin reflecting a bluish ebony.
Precise swagger of hips and fine-tuned waists.
Feet that seem to levitate in a compass-contagion.
Treading mud, polishing stones and settling dust.
Thousands of unimportant little lives.
Disappearing, crushed by other lives.
Slimy grasses ooze lush leaves, in cauldrons of burning fire.
Darkened hearts rot out of sight of the White World.
In the gaps of blood suns, amidst the confusion of shapes and shadows.
What human act makes sense in the savannahs?
Ants invading the porous stalks.
Phosphorescent eyes fixed on eternity.
Rapid flurries of birds.
Swamps and mushrooms on the threshold of forests, overflowing with the sinister.
A sound invades our anima and animus.
From the ancestral drums of harsh blackness resounds the anguish of a race.
That writes a rare childhood book in the cradle of the human race.
And here, this horrified young lady, without a proper word, agonises between the brutal and the hesitant.
That between writing and acting, it becomes necessary “not to hide”.
From the confines of the horror of Prejudice, she stirs the infectious mud and disguises the irony that without the black pearls there would never be sounds, colours and joy.