
Segundo Sandór Ferenczi há momentos em que a história vivida transforma a concepção de tempo social, destacando a necessidade de enfrentar desafios comuns de forma conjunta.Porque a reação imediata ao trauma é uma “agonia psíquica e física que acarreta uma dor tão incompreensível e insuportável” que o sujeito precisa distanciar-se de si mesmo, vivendo num estado de suspensão.
A ideia é que, em situações críticas, o “eu” se torna secundário ao “nós”, exigindo uma ação coletiva para a construção de um futuro sustentável.
E, eu me pergunto -o que seria este futuro sustentável?!?
E, essa reflexão insistente vem de estudos sobre traumas geracionais, o que são e como superá-los.
Em 2014 tive a benemerência do Estado Brasileiro de poder participar das Clínicas do Testemunho, através do Instituto Projetos Terapêuticos em São Paulo.
As Clínicas do Testemunho marcaram a ideia de que o Estado brasileiro produziu tortura e outras formas de repressão que atingem o psiquismo das vítimas, formando o que se denomina trauma psíquico. As vítimas da violência estatal precisavam na ideia da não patologização (que significa retirar do indivíduo qualquer pecha ou rótulo a respeito da sua integridade mental) para que tenha lugar a construção da memória coletiva, que por sua vez rompe com o silenciamento/isolamento social. As Clínicas do Testemunho se efetivaram em três eixos de ação: a capacitação de profissionais para essa especificidade clínica e a frente de atendimento clínico (individual e grupos de testemunho) e a produção de insumos para a memória coletiva (vídeos, filmes, documentários, etc).
Segundo a Corte Interamericana de Direitos Humanos, 2010, o golpe militar de 1964 que derrubou João Goulart deu início a um período de 21 anos caracterizado pela instalação de um aparelho de repressão que assumiu características de verdadeiro poder paralelo ao Estado”, e chegou ao seu “mais alto grau com a promulgação do Ato Institucional nº 5 em dezembro de 1968.Entre 1969 e 1974, produziu-se “uma ofensiva fulminante sobre os grupos armados de oposição. Segundo a Comissão Especial, cerca de 50 mil pessoas teriam sido detidas somente nos primeiros meses da ditadura; cerca de 20 mil presos foram submetidos a torturas; há 354 mortos e desaparecidos políticos; 130 pessoas foram expulsas do país; 4.862 pessoas tiveram seus mandatos e direitos políticos suspensos, e centenas de camponeses foram assassinados.
Nem um porcento destas pessoas foi acolhido por este Projeto.
A partir deste dispositivo de escuta clínica, onde conheci protagonistas e coadjuvantes desta luta inglória por um Brasil mais justo, e de ter visto nascer e passar a integrar o Coletivo de Filhos & Netos por Memória, Justiça e Verdade, venho me empenhando na saga de criação de um Centro de Referência de Reparação Psíquica para vítimas e afetados pela violência de Estado, numa parceria entre o Ministério de Direitos Humanos e o Ministério da Saúde.
Contemplando também os jovens periféricos e suas famílias devastadas pela polícia militar diuturnamente.
Não. Não sou uma profissional de saúde mental.
Nem estou reivindicando este dispositivo de escuta clínica para meu uso pessoal.
E, justamente porque foi extremamente decisivo para uma virada de chave em meu processo pessoal emocional, é que eu gostaria de ver outras pessoas beneficiadas e contempladas, para que retomem suas vidas com mais leveza e possam se tornar protagonistas da ação, preenchendo suas lacunas com cuidados especiais de profissionais gabaritados para este tipo de atendimento.
Num olhar atento para os fragmentos de falas dos companheiros e companheiras percebi que estes testemunhos carregavam a dor do imaterial típica das situações traumáticas e das feridas que insistem em não cicatrizar.
Muitos camaradas, ativos militantes históricos, refutam a Terapia, e negam o trauma. Direito que lhes cabe. Eu mesma, silenciei por 50 anos qualquer menção ao meu processo pessoal referido à ditadura militar.
Que sejam beneficiados, então, os que estejam dispostos a falar e compartilhar com outros e construir assim, quem sabe, este futuro sustentável.
Estamos há 62 anos do golpe militar e, apesar de quase cinco mandatos de governo progressista, que ajudamos a eleger, muito pouca atenção foi dada a este assunto, desrespeitando a história destes lutadores e a devastação de suas famílias.
E, apesar de bater nesta tecla insistentemente, ainda acho, que somente o dispositivo clínico não será suficiente, dado o tempo de acúmulo de mazelas e que outras terapias alternativas devam ser disponibilizadas para acelerar o processo de cura.
Resta a questão:
A reparação psíquica é possível?
Lide com suas questões emocionais, senão vai passá-las aos seus filhos’, diz especialista em trauma Gabor Maté .
“Tudo está conectado com tudo. Você não pode separar indivíduos de seu meio ambiente, da cultura em que cresceram e da história de múltiplas gerações de suas famílias. E você não pode separar o corpo da mente.
“Quando uma pessoa fica doente, a doença não é apenas a manifestação de um órgão, mas sim a manifestação de toda uma vida. É tudo uma coisa só.”
Eu finalizo, assim: mesmo que estrangulássemos a nossa própria voz na garganta, não poderíamos ignorar nossa própria verdade.
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Entrevista com Issa Mercadante || Filhos da ditadura – YouTube
Shellah Avellar, jornalista e especialista em Gestão de Processos Comunicacionais
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Integra o Coletivo Filhos & Netos por Memória,Justiça e Verdade



FILHOS & NETOS POR MEMÓRIA,JUSTIÇA E VERDADE
UMA COMUNIDADE DE DESTINO
























































































