A COMUNIDADE DE DESTINO Shellah Avellar

Segundo Sandór Ferenczi há momentos em que a história vivida transforma a concepção de tempo social, destacando a necessidade de enfrentar desafios comuns de forma conjunta.Porque a reação imediata ao trauma é uma “agonia psíquica e física que acarreta uma dor tão incompreensível e insuportável”  que o sujeito precisa distanciar-se de si mesmo, vivendo num estado de suspensão. 

A ideia é que, em situações críticas, o “eu” se torna secundário ao “nós”, exigindo uma ação coletiva para a construção de um futuro sustentável.

E, eu me pergunto -o que seria este futuro sustentável?!?

E, essa reflexão insistente vem de estudos sobre traumas geracionais, o que são e como superá-los.

Estes  fenômenos que afetam famílias, comunidades e até sociedades inteiras e dizem respeito à transmissão de experiências traumáticas de uma geração para    outra, influenciando comportamentos, emoções e padrões de vida, mesmo que os descendentes não tenham vivenciado diretamente os eventos traumáticos.

Em 2014 tive a benemerência do Estado Brasileiro de poder participar das Clínicas do Testemunho, através do Instituto Projetos Terapêuticos em São Paulo.

As Clínicas do Testemunho marcaram a ideia de que o Estado brasileiro produziu tortura e outras formas de repressão que atingem o psiquismo das vítimas, formando o que se denomina trauma psíquico. As vítimas da violência estatal precisavam na ideia da não patologização (que significa retirar do indivíduo qualquer pecha ou rótulo a respeito da sua integridade mental) para que tenha lugar a construção da memória coletiva, que por sua vez rompe com o silenciamento/isolamento social. As Clínicas do Testemunho se efetivaram em três eixos de ação: a capacitação de profissionais para essa especificidade clínica e a frente de atendimento clínico (individual e grupos de testemunho) e a produção de insumos para a memória coletiva (vídeos, filmes, documentários, etc).

Segundo a Corte Interamericana de Direitos Humanos, 2010, o golpe militar de 1964 que derrubou João Goulart deu início a um período de 21 anos caracterizado pela instalação de um aparelho de repressão que assumiu características de verdadeiro poder paralelo ao Estado”, e chegou ao seu “mais alto grau com a promulgação do Ato Institucional nº 5 em dezembro de 1968.Entre 1969 e 1974, produziu-se “uma ofensiva fulminante sobre os grupos armados de oposição. Segundo a Comissão Especial, cerca de 50 mil pessoas teriam sido detidas somente nos primeiros meses da ditadura; cerca de 20 mil presos foram submetidos a torturas; há 354 mortos e desaparecidos políticos; 130 pessoas foram expulsas do país; 4.862 pessoas tiveram seus mandatos e direitos políticos suspensos, e centenas de camponeses foram assassinados.

Nem um porcento destas pessoas foi acolhido por este Projeto.

A partir deste dispositivo de escuta clínica, onde conheci protagonistas e coadjuvantes desta luta inglória por um Brasil mais justo, e de ter visto nascer e passar a integrar  o Coletivo de Filhos & Netos por Memória, Justiça e Verdade, venho me empenhando na saga de criação de um Centro de Referência de Reparação Psíquica para vítimas e afetados pela violência de Estado, numa parceria entre o Ministério de Direitos Humanos e o Ministério da Saúde.

 Contemplando também os jovens periféricos e suas famílias devastadas pela polícia militar diuturnamente.

Não. Não sou uma profissional de saúde mental.

Nem estou reivindicando este dispositivo de escuta clínica para meu uso pessoal.

E, justamente porque foi extremamente decisivo para uma virada de chave em meu processo pessoal emocional, é que eu gostaria de ver outras pessoas beneficiadas e contempladas, para que retomem suas vidas com mais leveza e possam se tornar protagonistas da ação, preenchendo suas lacunas com cuidados especiais de profissionais gabaritados para este tipo de atendimento.

Num olhar atento para os fragmentos de falas dos companheiros e companheiras percebi que estes  testemunhos carregavam a dor do imaterial típica das situações traumáticas e  das feridas que insistem em não cicatrizar.

Muitos camaradas, ativos militantes históricos, refutam a Terapia, e negam o trauma. Direito que lhes cabe. Eu mesma, silenciei por 50 anos qualquer menção ao meu processo pessoal referido à ditadura militar.

Que sejam beneficiados, então, os que estejam dispostos a falar e compartilhar com outros e construir assim, quem sabe, este futuro sustentável.

Estamos há 62 anos do golpe militar e, apesar de quase cinco mandatos de governo progressista, que ajudamos a eleger, muito pouca atenção foi dada a este assunto, desrespeitando a história destes lutadores e a devastação de suas famílias.

E, apesar de bater nesta tecla insistentemente, ainda acho, que somente o dispositivo clínico não será suficiente, dado o tempo de acúmulo de mazelas e que outras terapias alternativas devam ser disponibilizadas para acelerar o processo de cura.

Resta a questão:

A reparação psíquica é possível?

Lide com suas questões emocionais, senão vai passá-las aos seus filhos’, diz especialista em trauma Gabor Maté .

Tudo está conectado com tudo. Você não pode separar indivíduos de seu meio ambiente, da cultura em que cresceram e da história de múltiplas gerações de suas famílias. E você não pode separar o corpo da mente.

“Quando uma pessoa fica doente, a doença não é apenas a manifestação de um órgão, mas sim a manifestação de toda uma vida. É tudo uma coisa só.”

Eu finalizo, assim: mesmo que estrangulássemos a nossa própria voz na garganta, não poderíamos ignorar nossa própria verdade.

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Retalhos da Memória – YouTube

Entrevista com Issa Mercadante || Filhos da ditadura – YouTube

Shellah Avellar, jornalista e especialista em Gestão de Processos Comunicacionais

https://sensorion2.webnode.com

Integra o Coletivo Filhos & Netos por Memória,Justiça e Verdade

FILHOS & NETOS POR MEMÓRIA,JUSTIÇA E VERDADE

UMA COMUNIDADE DE DESTINO

62 ANOS DO GOLPE MILITAR-A REPARAÇÃO PSÍQUICA É POSSÍVEL ? SHELLAH AVELLAR

62 ANOS DE DO GOLPE MILITAR

A REPARAÇÃO PSÍQUICA É POSSÍVEL?

PAINEL E RODA DE CONVERSA SOBRE REPARAÇÃO PSÍQUICA PARA VÍTIMAS E AFETADOS PELA VIOLÊNCIA MILITAR E EFEITOS TRANSGERACIONAIS, DESLOCAMENTOS, DESPARECIMENTOS E ABUSOS,E  PERPASSANDO PELOS MECANISMOS DE TORTURA INSTITUCIONALIZADA E A PRECARIEDADE DAS INTITUIÇÕES DE SAÚDE MENTAL E SEUS LIAMES COM OS PODERES DITATORIAIS.

Dia 31 de março terça-feira de 14 as 17h

No auditório da Livraria Martins Fontes Paulista

Av Paulista ,509 SP CAPITAL

https://www.instagram.com/p/DWfFo_TCXGo/?img_index=5&igsh=NnI5Mnpub3hhOW9r

(1) Retalhos da Memória – YouTube

https://radiopeaobrasil.com.br/painel-debate-reparacao-psiquica-62-anos-apos-o-golpe-militar

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62 anos depois, vítimas da ditadura ainda esperam reparação psíquica | ABI

62 anos depois, vítimas da ditadura ainda esperam reparação psíquica

Entrevista com Issa Mercadante || Filhos da ditadura

TARDE SOBERANA RPS REDE PELA SOBERANIA

GT COMUNICAÇÃO -NÚCLEO SÃO PAULO Shellah Avellar

Fazemos parte do Movimento Nacional

REDE PELA SOBERANIA.

Nossa entidade foi fundada em 1º de julho de 2025.

O objetivo do Rede, apoiado no Inciso I, Artigo 1º da Constituição Federal,

é zelar pela soberania nacional, princípio inegociável e imprescindível

para a construção de um País  Democrático, Desenvolvido e Justo.

A Unidade Paulista do Rede foi formalmente constituída em 3 de novembro

em reunião publicamente anunciada,

ocorrida no Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo.

A Soberania que propugnamos se apoia em dois pilares:

1. Reafirmação, permanente, do princípio constitucional do Artigo 1º da Constituição federal

2. Mobilização cívica sempre que interesses antinacionais tentem nos subjugar.

Nosso movimento é apartidário.

Nosso grupo é plural.

Assim, vimos aqui abrir nossa porta para pessoas e entidades identificadas com a Soberania Nacional, bandeira que agrega e impulsiona os brasileiros.

Viva o Brasil. Viva a Democracia. Viva a Soberania Nacional.

REDE PELA SOBERANIA NÚCLEO – SÃO PAULO

SYLVIO COSTA -JORNALISTA E PRESIDENTE DA RPS       Brasilia DF

Trabalhou em diferentes áreas e funções na Folha, na BBC, no Correio Braziliense e na IstoÉ, entre outros. Mestre pela Universidade de Westminster (Londres), também foi professor universitário e oficial de comunicação e mobilização do Sistema ONU. Criou e esteve à frente durante quase 21 anos da redação do Congresso em Foco, que nesse período recebeu dezenas de premiações e se tornou o veículo brasileiro mais premiado no famoso festival de inovação de Cannes, na França (oito leões conquistados entre 2019 e 2023).

ALVARO EGEA-ADV, SEC GERAL DA CSB–CENTRAL DOS SINDICATOS BRASILEIROS                                                                                                                         ANDREA AGERAMI GATO ADV,SEC GERAL SINDINAPI SIND NAC APOSENTADOS

PENSIONISTAS E IDOSOS DA FORÇA SINDICAL, CONSELHO EST DO IDOSO SP

, CONS MUN  PESSOA IDOSA -SANTOS

CHICO BEZERRA – ADV, SINDICALISTA,ATIVISTA DH FST-SP,ACAT BRASIL CJP-

ABC

FERNANDO FREITAS-PSI CLINICO, ATIV DH ,ORGANIZA ONGs, MEMBRO DO

FORUM DE PRESOS POLÍTICOS SP E ANAAP SP

HERCULANO- MEMBRO DA COM,ISSÃO DE JUSTIÇA E PAZ SP

JOÃO FRANZIN –JORNALISTA DESDE1978,FUNDADOR DA AGENCIA  SINDICAL

RUTH COELHO MONTEIRO –JORNALISTA E ADV,PRES SINTIVEST  BAIXADA

 SANTISTA , SEC CIDADANIA E DH DA FORÇA SINDICAL

SHELLAH AVELLAR- JORNALISTA , PRES SENSORION SPECIAL PROJECTS,

GESTORA DE PROCESSOS COMUNICACIONAIS ,MEMBRO DO

COLETIVO FILHOS NETOS POR  MEMÓRIA,JUSTIÇA E VERDADE

TARDE SOBERANA

É O PRIMEIRO ATO PÚBLICO APRESENTANDO A REDE PELA SOBERANIA NACIONAL.  Uma iniciativa da RPS – NÚCLEO SP.

21 de março/sábado de 14h às 17 h no ECLA- Espaço Cultural Latino Americano.

Rua Abolição 244 Bela Vista SP CAPITAL

A soberania una, indivisível, inalienável e imprescritível num grito de liberdade, na voz de jovens artistas:

SLAM FYA DO ABC

CANTRIZ AYIOSHA

Um toque criativo e assertivo num momento grave para o Brasil e o mundo, ressignificando a urgência da tessitura da paz.

Um congraçamento de lideranças sindicais e movimentos progressistas para provocar reflexões e ações futuras que valorizem o sentido de nação.

Shellah Avellar       https://sensorion2.webnode.com

Rede pela Soberania realiza ato público em São Paulo

https://www.sindicatodosaposentados.org.br/noticias/rede-soberania-encontro

https://revistaforum.com.br/aposentados/sindnapi-reforca-importancia-do-debate-sobre-soberania-nacional

https://www.instagram.com/reel/DWPWtKvCQDY/?igsh=ZW1ubDh3Mm4wc3d2

Tarde Soberana abre ciclo em SP – Agência Sindical

ENQUANTO O METEORO NÃO VEM Shellah Avellar

em homenagem ao grupo fome oficial de teatro

A GENTE VAI SE PERGUNTANDO:VOCÊ É FELIZ?

O ARTISTA VAI FUGINDO E INDO AO ENCONTRO DE OUTRAS OBRAS E FORMAS E GESTOS, NOS QUAIS RECONHECE A PRESENÇA DE UMA CRIATIVIDADE INTRATÁVEL.

A FORÇA DE DE PERSEGUIR DURANTE TODA A VIDA ,OS SINAIS DE UM PODER CRIADOR,SIMULTANEAMENTE IMANENTE E TRANSCENDENTE ÀS COISAS MORTAS.

O HOMEM PERSEGUE SUA VIRILIDADE NO REGAÇO DE MÚLTIPLAS VAGINAS DESCONHECIDAS.

A MULHER AINDA SUCUMBE ÀS SEDUÇÕES DO SHOW PERMANENTE QUE OFERECE AOS OLHARES FAMINTOS.

OS INVISÍVEIS TENTAM RESISTIR AOS TEMPOS DE DESPREZO.

O PLANETA TERRA SE  TORNA LOUCO, EXPLODINDO EM VULCÕES, TERREMOTOS, TSUNAMIS E ENCHENTES PELO DESCASO DOS SERES DESUMANOS

NO FUNDO DA VERTIGEM AS GUERRAS SANGRAM VIDAS E CEIFAM SONHOS “ IN REAL TIME” NAS REDES SOCIAIS.

SÓ ENCONTRATREMOS POR  AQUI TENTATIVAS DE CONTRADIÇÕES.

HÁ UMA ATITUDE INTERMEDIÁRIA E VÃ QUE CONSISTE EM  DISTRAIR O PRÓPRIO ESPÍRITO PROCURANDO PRAZERES POSSÍVEIS PARA DEIXAR A VIDA BROTAR E SE REALIZAR EM NÓS.

TENTAMOS SAIR DA OBSCURIDADE NOS EXIBINDO NAS MÍDIAS DEVORADORAS DE INSTANTANEIDADE.

QUEREMOS FERIR, E DILACERAR NUMA INVERSÃO ÉTICA NOS TRAVESTINDO DE EDUCADOR JULGADOR E TORTURADOR.

VENHO AQUI, NESTE ESPAÇO, QUASE MURMURANTE,ME TORNAR UMA FILÓSOFA DO MARTELO,PARA ME FAZER OUVIR COM A JUSTEZA POLICIADA DE UMA LINGUAGEM CHEIA DE MALÍCIA PARA PARECER EXEMPLAR PARA A JUVENTUDE AQUI PRESENTE.

A ESCRITORA E SEU EXERCÍCIO DA LÍNGUA,SUPORTA O RUMOR DAS PALAVRAS ATÉ NEGOCIAR COM ELAS SEU PRÓPRIO TOM E A SE RECONHECER  TAMBÉM NO ESTILO DOS OUTROS POETAS E CANTANTES DA RIMA E DA PROSA.

CAFÉ DOS DEUSES Shellah Avellar

Manhã de Sábado, 19 de julho. Estou me preparando para ir entregar uma aquarela para alguém, o que já estava agendado há um mês.

Daí, já no portão saindo para meu compromisso, recebo uma ligação de um pedido de adiamento.

Volto para deixar a encomenda em casa. Abro o zap, e vejo uma conclamação  geral do Sargent Pepper- o   amigo Sergio Gomes, para um café presencial com Leonardo Boff em sua residência.

Penso…uau.. Boff está a quatro quadras daqui.

Lá vou eu, descontraidamente ,me aventurar nesta viagem de beber nesta fonte, ao vivo e em cores.

Atrasada, imagino que deva estar lotado por lá. Qual não foi minha surpresa ao constatar que havia um pequeno grupo de pessoinhas especiais, na maioria jovens (onde me enquadro…risos) e adultos não menos energéticos e comprometidos com o exercício da LIVRE EXPRESSÃO em sua mais completa definição.

Tomo o primeiro de uma série de cafezinhos, e ouço atenta o convidado. Os encontros intimistas nos permitem adentrar outros universos de forma mais perscrutadora.

Ali estava o homem, o sábio, o companheiro de lutas, liberando pausadamente suas histórias e generosamente derramando sobre, abaixo e dentro de nós sua espiritualidade em franca evolução.

Ali se encontravam a matéria e o espírito seduzidos uma pelo outro e destinados ao “desentendimento’, motor propulsor da pesquisa bem-sucedida.

Para mim era mais que isso. Era um resgate de lembranças de um tempo bom, de investidas criativas e líricas, meio a dores pungentes, nos anos 70 , em minha cidade natal, Barra do Piraí, interior do Rio de Janeiro. Era uma imposição solene do finado amigo de infância e adolescência , o artista plástico Nelson Porto, que me introduziu ao texto de seu amigo e parceiro de obras literárias, Leonardo Boff. Ele dizia que a teologia de Boff vinha ao encontro de minhas inquietações e questionamentos polêmicos sobre religião e credos generalizados. Senti sua presença e a emoção do reencontro, em dimensões diferentes. Maktub!

Extinto o prazo do café, o anfitrião nos convidou a esticar para um almoço que se estendeu até o entardecer.

Tudo perfeito, debaixo de uma videira, com frestas de um sol atento, desfiamos nossas lendas, trajetórias, desabafos,  identidades, e indignações, regados a  uma comida solidária deliciosa, e às gentilezas da ariana Ana Luiza, companheira de cruz, copo e  ativismo profissional e social do Serjão.

Sem julgamentos, nos ouvimos e compartilhamos pão e vinho.

Éramos 12. E à imagem e semelhança da Santa Ceia, nos permitimos ser nós mesmos, sem crivo e sem filtro.

Na mistura de profissionais de atividades sociais, de jornalismo, arte e arteirices, comunicação e outras ciências liberamos tumultos internos e os transformamos em adubos que nos fertilizaram e saímos de lá renovados.

Muitos registros em fotos e vídeos, para materializarmos e eternizarmos o momento para além da memória afetiva.

Só havia espaço para a Celebração da Vida.

Sei que por ali já passaram várias cabeças extraordinárias. Aquela varanda está impregnada de potências.

Mas, foi minha primeira vez. E, dizem, que a primeira vez a gente nunca esquece.

Que venham outros.

Muito Obrigada.

Abs kósmikos.

#oAmorSIM

Sob os auspícios do Espírito Santo

photos de Camilo Mota e Shellah Avellar

Capa: Deus e o Homem -Leonardo Da VINCI

livro VIA SACRA DA RESSURREIÇÂO-presente de Luis Pio Pedro(Neném)

ONDE É QUE A BANDA TOCA? Shellah Avellar

A Corporação Musical Operária da Lapa é uma comunidade musical amadora nascida no final do século XIX. Mistura-se à história de São Paulo, composta pela  classe operária: mecânicos, metalúrgicos, eletricistas, frentistas, bancários, militares e professores, que, ajudaram a tecer sua trajetória impregnada de simbolismos. Enriquecida com a imigração, principalmente italiana, e com a  construção das linhas e oficinas da São Paulo Railway Company.

É qualificada por seus músicos como sendo “a banda mais antiga de São Paulo”. O grupo possui sede própria tombada pela prefeitura de São Paulo, em terreno doado por Nicola Festa.

O que torna uma comunidade musical legítima, é sua capacidade em servir uma determinada localidade. Portanto, a Corporação Musical Operária da Lapa, se estabeleceu gradativamente em um espaço que oferece possibilidades de comunicação e sociabilidade entre seus integrantes e o público.

Segundo o jornalista William Finnegan, “o sentimento de pertencimento a um mundo distinto e integrado, herdeiro de uma tradição orgulhosa e independente, foi reforçado ainda mais pela continuação da longa tradição de bandas de música que desempenham uma função pública para a comunidade local”.

A primeira fase do grupo, um período dúbio, justamente pela carência de informações e a falta de registros, compreende sua fundação e se estende até a fixação do nome “Corporação Musical Operária da Lapa” em 1914.

Este período foi, para o grupo, uma fase marcada pelas intrincadas tentativas de se estabelecer como banda operária remunerada.

Seus primeiros nomes (Lyra da Lapa, Banda XV de Novembro e Banda dos Empregados da SPR), a grande influência italiana através de seus integrantes e singularmente o fato de estar entre as dezenas de bandas e grupos operários de São Paulo expressa que o conjunto foi um produto de seu tempo.

De acordo com a documentação recente da banda, depoimentos, algumas matérias de jornais, os livros de Hardman (2002, p. 371)17, Moraes (1995, p. 157)18 e Santos (1980, p. 81)19 e também de páginas da web, o aparecimento da CMOL é atribuído ao pianista e professor italiano Luigi Chiaffarelli (1856-1923).   *Dados extraídos da tese de Juliana Soares da Costa UNICAMP

No entanto, essa informação é indefinida.

Franco Cenni, casado com a neta de Luigi, relata que Chiaffarelli e  família vieram para o Brasil em 1880 a convite de um grupo de fazendeiros de Rio Claro, a fim de ministrar aulas de piano às filhas de fazendeiros do café. Contudo, Chiaffarelli permaneceu em Rio Claro por pouco tempo e regressou à capital em 1888.

Para esta questão, é necessário nos remetermos ao antropólogo Paul Connerton e sua noção de memória social:

Como as sociedades recordam?

Como é que a memória dos grupos é transmitida e conservada?

“As lembranças grupais se apoiam umas nas outras formando um sistema que subsiste enquanto puder sobreviver a memória grupal”, ressalta a psicóloga Ecléa Bosi.

Ao longo da observação participativa e do manuseio de documentos e reportagens, vimos a banda se reconhecendo como fundada em 1881. Como mencionado, é uma informação perpetuada pelo conjunto por toda sua existência, e ao redor disso criou-se uma narrativa – ou uma “mitologia” – tornando-se uma marca de orgulho para a banda, ter sido fundada por Luigi Chiaffarelli em 1881.

Neste caso, podemos sugerir que alguma performance de banda no bairro da Lapa, em 1881, formada por operários músicos com algum contato próximo a Chiaffarelli, mais tarde faria parte da Corporação, marcando assim a fundação do grupo.

Nossas experiências do presente dependem em grande medida do conhecimento que temos do passado e as nossas imagens desse passado servem normalmente para legitimar a ordem social presente. E, assim, são transmitidos e conservados.

Portanto, a memória social não necessita comprovação: ela é aquilo que as pessoas lembram e que continua a ter relevância no presente, perpetuando-se.

A memória é um espaço onde as esferas biológicas e socioculturais do ser humano se encontram e, ao serem integradas à vida em sociedade, adquirem significados.

A figura de Chiaffarelli e a data de 1881 indicam para os integrantes a importância da banda e trazem um capital simbólico para o grupo, além do sentimento de compromisso com a continuidade da banda.

Luigi Chiaffarelli

Talentoso Pianista, Maestro e Professor, admirado pelos seus alunos, criou em São Paulo uma escola de interpretação musical que persiste até hoje através de seus discípulos.

Passaram por suas mãos, Guiomar Novais, Antonieta Rudge, Maria Edul, Francisco Mignone e Guilhermina de Freitas, entre outros.

Sua filha, Elisa Hedwig Carolina Mankel Chiaffarelli (Liddy Chiaffarelli) casou-se com Paolo Agostino Cantu, com quem teve dois filhos, Elza e Bida.

Liddy, casada pela segunda vez com o Maestro Francisco Mignone, pertencia à sociedade paulistana e tinha sólida formação musical e revolucionou a prática de iniciação musical. Aliou-se a Mario de Andrade na semana de 22, e com seu marido, fazia apresentações em favelas no Rio, com recepção bastante entusiástica. Uma Escola Pública em Paty do Alferes, RJ, leva seu nome.

Seu bisneto, Roberto Cenni (filho de Elza Cantu Cenni e Francisco Cenni), desconhecia a existência da Banda Operária da Lapa. Mas, me enviou uma carta em homenagem ao bisavô, oriunda da Comunidade de Cercemaggiore, cidade natal de Luigi, datada de 06.08.2022, onde apontam o pai de Luigi, Olympio, como maestro de bandas e orquestras, em sua região, o que comprova seu DNA.

Ele declara sobre o bisavô: Luigi Chiaffarelli veio ao Brasil patrocinado por famílias ricas de Rio Claro e desenvolveu uma importante escola pianística bastante conhecida. Porém este outro lado de promover bandas de operários é bem pouco divulgado. Creio que proporcionar o encontro de “pessoas simples” com a música num país essencialmente capitalista é uma bela atitude e orgulho-me de Luigi ter tido esta iniciativa.

Franco Cenni, Elza Cantu Cenni(neta), Liddy Chiaffarelli (filha), Anna Maria ,Mario Cenni
e Roberto Cenni(bisnetos de Luigi Chiaffarelli) 1958

Acervo Folha SP registro de falecimento do Maestro Luigi Chiaffarelli há 100 ANOS

A formação atual da Banda Operária da Lapa

A Corporação Musical Operária da Lapa ainda se mantém ativa contando com diretoria, regente e estatuto próprios. Foi registrada formalmente como uma associação privada em 1972, e desde então é mantida graças ao caráter voluntário do trabalho de seus membros.
A banda era restrita apenas aos músicos homens, mas, no final dos anos 70, começaram a aceitar mulheres.

Ieda Viera de Figueiredo, trompetista.

É o único elemento feminino da Banda, neste momento.

Professora e agente de saúde. Já tocou na Banda de Osasco. Fez parte do coral da Cultura Inglesa. Já integrou a Banda Operária da Lapa, há alguns anos atrás. Mas, retornou há um ano. Apesar de ser a única musicista mulher da Banda, deixa claro que foi muito bem recebida. Segundo ela, são pessoas maravilhosas. E garante que se sente feliz com a mesma intensidade de quando tinha 20 anos.

Jose Maria Tamburu, sax tenor

Entrou na banda aos 18 anos, e a preside há 15 anos. Diz que todos os momentos têm sido memoráveis, mas, sente a ausência de seu pai, o trompetista João Tambor, que lá tocou por 30 anos. Se ressente da falta de apoio do poder público, para a manutenção das instalações, dos instrumentos, infraestrutura básica e apoio a novos projetos.

Maestro Nestor Avelino Pinheiro

Segundo o maestro a Juventude não tem interesse no estilo de música que as bandas tocam.

“Talvez se houvesse um projeto de Escolinha de Bandas, poderíamos tentar despertar o entusiasmo na molecada.”, sugere Nestor Avelino.

Trompetista, acabou virando maestro, a convite do pessoal da Banda. Nascido em Nazaré Paulista, seguia a banda e gravava as músicas durante as apresentações nas festas locais. Aos 50 anos de idade começou a aprender música.

Acabou entrando na Banda Operária da Lapa e está lá até hoje. Para ele, a banda por si só já é um acontecimento.

“É minha vida “, finaliza emocionado.

BANDA OPERÁRIA DA LAPA

No último dia 09 de julho-Dia da Luta Operária- a Banda não poderia estar ausente. Marcou presença no Sindicato dos Padeiros, sob a regência do orgulho da Luta dos Trabalhadores que constroem o Brasil desde sempre.

Shellah Avellar -Escritora, jornalista e Gestora de Processos Comunicacionais -Cria Desenvolve e Executa Projetos Especiais de Comunicação, Cultura e Responsabilidade Social. Uma eventualidade que permanece aberta. Sobrevivente e Aprendiz.

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