IN VINO VERITAS Shellah Avellar

Acrílico sobre Tela(70×140)SP 2018

COMO SE FOSSE A MADONA

COM SEU MENINO

A VIDEIRA E SUAS FOLHAS

SE ESTENDEM PARA O CÉU ,

CANSADAS DA REALIDADE.

PARA CONQUISTAR O AMOR,

ESTE IMPÉRIO EXTINTO.

OU RESGATAR UMA VIDA

QUE PARECE FORA DE SI…

intervenção vocal:ayiosha Avellar

música incidental:Comunhão (autoria:Fernando Brandt & Milton Nascimento)

MULHER Shellah Avellar

acrílico sobre tela (70×140)

MULHER-LUA

MUHER-SOL

MULHER QUE SANGRA

MULHER QUE AMANHECE

MULHER QUE CHORA

MULHER QUE ANOITECE

UM ESTRANHO JEITO

DE SER PERA E POEMA

E SEMENTE DE VIDAS

SUJEITA A ABUSOS

POR SER VIOLÃO

OU POR SER

MULHER SOMENTE

OBRA-PRIMA

EM CONSTANTE CONSTRUÇÃO ..

atriz: Ayiosha Avellar

MISCIGENAÇÃO Shellah Avellar

(Acrílico sobre tela 4Ox40)São 4 telas(20×20) k podem ser remanejadas, mostrando as várias possibilidades de diálogo entre as quatro raças humanas.(ainda ñ finalizada)

Como se fosse uma guerra

O BRANCO,O NEGRO,

O AMARELO E O VERMELHO

Se digladiam..

Entretanto Estas mil faces

Têm ímpetos de céu

E olhos cheios de estrelas..

VOCÊ SOU EU

EU SOU VOCÊ

Talvez não faça sentido.

Quantos pulos são precisos

Para juntos darmos um salto?

E podermos ser Tudo o que quisermos?

Abrindo a página

Em branco e preto

Para que todas as cores

Pinguem e se misturem?

E os pontos de vista

E acordes dissonantes

Se harmonizem

Em um único e vigoroso SOM?

DA COR DO ÉBANO Shellah Avellar

arte:shellAHAvellar


Transformar a sociedade parece que já não nos interessa.

Uma poética dos atos extensiva à comunidade humana é apenas metafísica individual.

Somos folhas ao vento, precárias, sujeitas às pressões de fraudes, abusos de poder e injustiças.

Talvez uma foto amarelada de uma resolução política motivada por uma solidariedade às vítimas das injúrias.

É um parto com fórceps, numa ilusão de que a nossa carne dilacerada sofre a dor dos outros.

De repente, entramos num estado letárgico em que nada mais se espera do Homem.

E, então, do silêncio dos nativos do planeta Terra, eis o grito primal da África-Mãe.

O primeiro batuque.

O sorriso branco ― brilhante de bocas carnudas.

Íris cintilantes de sábios encantados.

Divindades míticas de mantras arcaicos.

Pele que reflete um ébano azulado.

Gingado preciso de ancas e quadris afinados.

Pés que parecem levitar num compasso-contágio.

Pisando lamas, polindo pedras e assentando poeiras.

Milhares de pequenas vidas tão sem importância.

Desaparecendo esmagadas por outras vidas.

Exalam ervas viscosas de folhas viçosas, em caldeirões de fogo ardente.

Corações em trevas apodrecem fora das vistas do Mundo Branco.

Em brechas de sóis de sangue, em meio à confusão de formas e sombras.

Que ato humano faz sentido nas savanas?

Formigas que invadem os caules porosos.

Olhos fosforescentes com fixidez de eternidade.

Rápidas rajadas de pássaros.

Pântanos e fungosidades no limiar das matas, que extravasam o sinistro.

Um som nos invade a anima e o animus.

Dos tambores ancestrais da rija negritude ecoam a angústia de uma raça.

Que escreve um livro raro de infância no berço da raça humana.

E, aqui, esta jovem senhora estarrecida, sem uma palavra adequada, agoniza entre o brutal e o vacilante.

De que, entre escrever e agir, se faz necessário “não se esconder”.

Dos confins do horror do Preconceito, afasta o lodo infecto e disfarça a ironia de que sem as pérolas negras jamais haveria sons, cores e alegria.

Ouça também “Ébano”, de Luiz Melodia:

#BlackLivesMATTER #VidasNegrasIMPORTAM #aLutaSIM #aResistênciaSIM #oAmorSIM

PALAVRÃO É UMA PALAVRA GRANDE Shellah Avellar

Steven Arthur Pinker, psicólogo e linguista canadense , acredita que a raiz histórica dos palavrões  talvez tenha  sido a religião, durante a Idade Média, quando evocar o nome de Deus de forma blasfema era o pior dos palavrões. Nesta época surgiram expressões tais como “vá para o diabo”.

Depois, foram sendo criadas novas expressões, ligadas à sexualidade e ao corpo humano e denominadas de baixo calão.

Seria  impossível listar aqui todos os palavrões do idioma português, pois diariamente surgem  mais maneiras de ofender alguém ou de expressar algum descontentamento e sentimento através de gírias  e outros xingamentos.

Talvez seja urgente conhecer palavrões aos quais você não esteja habituado. Você pode se surpreender com a quantidade e as   diversas variações a seu dispor para quando desejar espinafrar alguém.

Ou, quem sabe, você queira decorar algumas dessas palavras para usar em suas redes sociais para impressionar a galera com gírias raras e chocar com as expressões de cunho obsceno?

Talvez queira utilizá-los nas tribunas, nos pódios, nos microfones, nas entrevistas, nas coletivas de imprensa,  nas reuniões familiares, profissionais  ,executivas e  ministeriais,  nos botecos de sua preferência ou nas esquinas da vida.

Assim poderemos vê-lo fungando, careteando e agitando as mãos, enquanto espera que alguém traduza o seu desprezo pelos seres humanos.

Cúmulo da “ ignonímia “, você acha que pode impingir qualquer impropério aos bípedes engessados que lhe prestam atenção e comungam de seus desvarios.

Permite-se arengar sobre as Instituições que garantem o livre exercício do processo democrático.

Brinca de Deus, vociferando sua mixórdia de idéias, confinando-as na obscuridade e deixando o auditório perplexo.

Sim, você nos presenteou com uma cena única onde se enfrentam e se enlaçam a baixeza e a perversão.

O mais interessante é que os que o aplaudem e seguem, também são alvo de seu escárnio e de seus despropósitos de afundar a nação e de vendê-la a preços módicos sucateando todas as camadas de força produtiva deste país à exceção de seus comparsas.

A maior parte dos palavrões originaram-se de termos não-escatológicos que, por convenções sociais e metáforas de duplo sentido, acabaram por tornar-se uma forma obscena de representação. Diversos deles vieram de radicais latinos como a expressão “caralho”, que surgiu do latim characulu, “boceta”, que veio do latim buxis. “Foda-se”, que vem do latim futere e “puta”, que veio do latim putta. Alguns palavrões mantém seu sentido original, como “foda”, “cu” – forma estendida do latim culus. Algumas dessas palavras foram  aportuguesadas de línguas como o espanhol, francês e inglês, tais como o termo “merda”: “mierda” no espanhol e “merde” no francês.

E, ao assistir esta performance grotesca, me lembro do caricaturista e ilustrador inglês Georges Cruikshank, que desenha estas pequenas criaturas que nem sempre nasceram viáveis. Ejacula este mundo minúsculo que se revira, se agita e se mescla com uma petulância indizível, sem se inquietar muito se todos os seus membros estão bem em seu lugar natural e com muita frequência, se debatem como podem.

Para horror dos que me conhecem, me permiti aqui discorrer sobre o PALAVRÃO, que na verdade, significa expressão pomposa e empolada, ou, uma palavra GRANDE.

Sabem por que? Porque até ingressar na Faculdade de Arquitetura, só conhecia e falava o palavrão “merda”. Ou porque não ouvia outros em casa e nem no colégio. Ou porque talvez não sentisse necessidade de utilizá-los porque tinha mais o que “ler”.

Minha mãe me contou que aos três anos de idade, ela ficou intrigada ao me ver no quintal de casa tentando subir numa latinha .E, impreterivelmente, perdia o equilíbrio e dizia “meda”…E ela caía na gargalhada, porque sabia que quando algo dava errado, ela exclamava merda.

Ou seja, nunca subestime a atenção subliminar e a observação privilegiada de uma criança ao seguir o exemplo dos pais. Crianças são agentes secretos perigosos. Poderiam ser extremamente úteis se contratadas pela C.I.A ou pelo F.B.I. Vai que a moda pega…

Hoje, meu repertório aumentou bastante, até porque parece ser a tônica dos pronunciamentos do poder vigente e, aliás, “haja poder “. Portanto  não consigo evitar de ouvi-los e algumas vezes repeti-los .

Isto não faz de mim recatada e do lar, nem careta. Às vezes, as palavras suaves e os argumentos firmes podem atingir o alvo mais precisamente que o palavrão, quando este é proferido “sem lenço e sem documento”.

Tenho amigos e amigas que falam muitos palavrões e acho o maior barato, porque não consigo vê-los sem portar seu rol de “palavras grandes “muito bem empregadas e na hora certa, no lugar certo e para as pessoas “incertas”…

Cai muito bem em humoristas e comediantes como Paulo Gustavo e o Coletivo Porta dos Fundos.

Por outro lado, também acho o Pedro Cardoso o máximo quando diz que não fala palavrões e arrebenta na retórica para defender seus pontos de vista.

Não estou aqui para defender a tradicional família brasileira com a hipocrisia de que não falar palavrões é sinônimo de boa educação.

A dor e a repulsa me acometem quando os nossos compatriotas  estão sucumbindo -literalmente a céu aberto – numa tragédia pandêmica, esta sim, despudorada e de proporções sem precedentes na história do Brasil.

Os estrondos da servidão ao ódio, que resulta de um acasalamento de insetos que se agarram no abraço da agonia, esfacelam nossos tímpanos quando você interpreta seu monólogo de destruição.

E, assim, como os artistas, que você persegue tanto, desejam boa sorte a seus pares nas estreias de seus espetáculos, lhe desejo: MERDE!

Estamos aqui, na fila do “gargarejo” aguardando o gran- finale.

E, talvez, este grand-finale, não seja aquele em que A Educação, Os Direitos Humanos, a Saúde ,o Meio-Ambiente e a Economia se utilizem de bizarrices e confidências cifradas e decretos oficiais misturados num saco de lixo esquecido no último vagão do trem dos horrores.

Mas, seja, sim, quem sabe, uma esperança desesperada, que num átimo estertoroso de oblação, transforme água em vinho e o sangue em pão e grite:

LIBERDADE!ABRA AS ASAS SOBRE NÓS!

http://editoralimiar.blogspot.com/2020/07/palavrao-e-uma-palavra-grande.html

HERÓIS IMPUROS Shellah Avellar

Não há nobreza mais antiga do que a dos jardineiros, dos abridores de fossas

 e dos coveiros…

Quem é que constrói mais solidamente do que o pedreiro, o carpinteiro e o
construtor de navios? Quando te fizerem de novo essa pergunta, responde que é o coveiro, porque a casa que ele constrói dura até o dia do Juízo.

                                                                        HAMLET, ATO V, Cena I  William Shakespeare

Uma descoberta de nossa insignificância permeia o noticiário e a nossa mente por conta da pandemia do COVID19. Ou, para os menos sensíveis à dimensão em que o Corona Vírus reafirma sua realidade, no estado de  São Paulo, com mais de 3000  óbitos, e o Brasil como epicentro  com aproximadamente 149 mil  contaminados, como  apenas uma “gripezinha”.

 O estado de coisas do abandono, nos condena a um obscuro naufrágio de nosso personalismo ao nos defrontarmos com o verdadeiro sentido da vida.

Fecham-se as cidades e morrem-se aos montes por aí, mundo afora. A imprensa se limita a túmulos e as pessoas inventam epitáfios que se servem da arte para oferecer a si mesmas a própria tragédia de não poder se despedir condignamente de seus entes queridos.

Os cidadãos do planeta Terra se limitam às janelas de suas casas para poderem observar o mundo e a ele se apresentar numa comunhão mística com sabor de desespero.

O imaginário se relaciona com lendas fúnebres. A melancolia parece esgotar a fonte do fantástico.

Uma virtude humanística se ergue como fraternidade viril de tentar alimentar a fome da massa que sempre a conheceu de perto.

A vontade se promove convertida à declamação política confinada, que é ao mesmo tempo a razão da derrota e a infeliz submissão ao bestiário que assola o país.

Tudo o que se sabe deste tsunami pandêmico no Brasil, é que é brutal e dissimulado. Que anestesia o povo, enchendo as valas comuns e causando um colapso.

E,os invisíveis, são proclamados heróis. Os profissionais da Saúde, da Limpeza e os Coveiros estão sob os holofotes.

Mas, quero me ater aqui, precipuamente, aos coveiros.

Estes seres humanos ,que em várias sociedades do mundo  sofrem grande discriminação   social e são rotulados  como “impuros.

Na Índia, pertencem à casta dos “intocáveis” e no Japão conhecidos como os “burakumin”.E,aqui, no Brasil,seriam então denominados de “Os Severinos”.

Será esta então a Nova Revolução Social ,da qual não nos demos conta porque estamos ocupados demais tentando xingar o desgoverno e fazer memes e chistes “ de” e “sobre “ quem não merece um milímetro de nossa atenção?

Mas,como podemos pensar em revolução se estamos apenas olhando nosso umbigo e reclamando de nossas mazelas enquanto os soldados da linha de frente se arrebentam para tentar curar ou sepultar nossos mortos?

Admitir definitivamente que vivenciamos um luto político em que a Democracia agoniza em praça pública?

E,quem pode se equilibrar entre reflexão e ação?Quando o enigma das formas demoníacas da Babilônia e da Igreja têm a mesma face?

Quem resistirá à  invasão dos répteis  e a ode ao blefe?

Segundo Karl Marx ,a classe revolucionária ascendente está destinada a suplantar a classe dominante  anterior . E é frequentemente referida como “coveira” da classe anterior. Assim, o papel histórico da   burguesia seria   de “coveira do feudalismo.

Tendo depois criado uma vasta e explorada “classe trabalhadora” , destinada a organizar e a promover uma revolução, teria feito com que a burguesia inevitavelmente criasse sua própria” coveira”.

Isto me faz lembrar um fato interessante sobre meu pai marxista e Samuel.

Ao menos duas vezes por semana, um senhorzinho muito simples,extremamente magro,mas de estrutura pétrea e com músculos definidos.Faces macilentas e sulcadas de rugas profundas .E calos que se apresentavam num aperto de mão vigoroso.Batia lá na porta de casa às 5 horas  da tarde.

Era o Samuel.Quando meu pai não estava a gente se limitava a dar a ele um dinheirinho que meu pai já deixava reservado ao personagem desta história.Quando meu pai estava, convidava o velhinho para entrar, sentar-se à mesa conosco para um lanchinho,para horror de minha mãe e para aguçar  minha curiosidade sobre aquele homenzinho quase sempre com cheiro de suor forte e olhar triste e penetrante.

Um dia perguntei ao meu pai,porque ele o convidava e quem era aquele homem.Ele repondeu com a maior tranquilidade: -Samuel é uma espécie de herói.Ele atende a humanidade no fim da cadeia alimentar.Merece todo o nosso respeito.

Quando meu pai morreu,num “acidente de carro” em fevereiro de 1971,minha mãe ficou com depressão profunda e eu fui impedida de chorar em casa,porque ela começava a gritar.

Então,eu ia ao cemitério,visitar o túmulo de meu pai,para poder chorar“tranquilamente”.

Mas, quando lá chegava,era mais uma vez impedida  de chorar.Porque o “coveiro “ Samuel estava inconsolável e chorava copiosamente a morte de meu pai.E alguém tinha de lhe dar atenção.E,este alguém era eu.

Por conta dos óbitos tenho pensado muito no Samuel e em todos os outros Samuéis que talvez não tenham tido a sorte de encontrar alguém que lhes respeitassem e lhes desse o verdadeiro crédito de heróis.

Aqui vai a minha gratidão aos Samuéis e Severinos que se transformaram em Prometheus permitindo aos nossos ter  ao menos uma cova digna  para poder  perecer serenamente e receber  o nosso adeus, ainda que à distância.

E para Aqueles que exploram a fé dos cegos e desavisados, em atos que se traduzem em cifras e impropérios, ofereço a minha compaixão de que é preciso perdoá-los “porque não sabem o que fazem”.

E, que tomem conhecimento de que “ninguém engana todo o mundo, todo o tempo  e para sempre.”.

Os homens se massacram aos milhares, seja por “propaganda enganosa” ou por odiosa violência.

No momento o que nos aproxima é um inimigo comum invisível.

O que nos separa é a defesa de privilégios e “mais valia” em detrimento da Vida. Talvez seja preciso muito tempo , sangue suor e lágrimas, para que se sonhe com a  libertação.

Mas com a Vida e a Morte, não há negociação. Somos todos reféns de Samuéis e Severinos.

Mais dia, menos dia, teremos um editorial de adeus e seremos apenas um número em alguma lápide esquecida de algum cemitério.

Resta-nos deixar um rastro de poeira de fim de mundo que caracterize nossas escolhas em vida:

Mentiras e baixezas? Ou sonhos de liberdade e igualdade?

Finalizo com o Funeral de um Lavrador do velho Chico Buarque, bom companheiro de balbúrdias sem fim:

Esta cova em que estás por palmos medida

É a conta menor que tiraste em vida.

É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio


Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida

https://www.letras.mus.br/chico-buarque/45132/

tema Musicado por Chico Buarque para MORTE E VIDA SEVERINA de João Cabral de Melo Neto

charge@laertecoutinho

FILÓSOFOS DA MARGINAL Shellah Avellar

Eram 10 horas da manhã de um sábado ensolarado.

E então, partimos, os quatro cavaleiros apocalípticos em sua jornada mítica em busca de nosso herói de cada dia.

Desafiando a carga da semana que trazíamos nas costas, desfilamos a pé pelas entranhas da Paulicéia. 

Pelas calçadas múltiplas adormeciam embolados sob cobertas improvisadas, panos e mantas rotas-os invisíveis- homens, mulheres e crianças que sonhavam a sono solto em pleno dia, num repasto de reis, posto que recolhiam da vida suas últimas gramas.

Como num trem-fantasma, silenciosos, prosseguíamos em nossa cavalgada a pé, como observadores privilegiados das misérias humanas, num retrato sem retoques. 

Tentamos o Terraço Itália, sem sucesso, num átimo de fugir do rés do chão e ampliar a perspectiva para tornar microscópica aquela dura realidade.   

Nos distraímos com a majestade das velhas construções revitalizadas e evocamos o espaço dos apartamentos e seus pés direitos quase imperiais, comparando às ínfimas caixas de fósforo em que hoje nos amontoamos, imposição da moderna engenharia urbana.

O ir e vir dos cidadãos se atropelando para consumir os preços módicos do comércio do centro, atrasou nossos passos. Enfim, o Teatro Municipal, o Viaduto do chá e tudo parecia simples e corriqueiro.

De repente, o coração sonhava, atraído pelos arranhados toscos de um violino ao longe.Um homem, sentado num caixote, com um chapéu no chão, onde descansavam algumas parcas moedas.

A imagem se precipita na paisagem corriqueira. Paramos. Seu nome? José Rosa, que paradoxo. Num cenário de vida tão nublado a nossos olhos desavisados- lá está ele: José Rosa,80 anos. Abre um sorriso que ilumina qualquer desesperança.

Desata numa prosa simpática, floreada de rompantes filosóficos a invejar qualquer simples mortal.

José Rosa se salienta. Desandou a falar de sua vida: “Enviuvei duas vezes”.

Hoje, mora, de favor, numa Kombi velha estacionada no estacionamento de um de seus dez filhos que botou no mundo para cirandar a vida.

Os olhos brilhantes de um ancião cuja sabedoria foi garimpada nos tempos de “carreto humano” hoje substituído pelos instrumentos musicais por conta do peso dos oitenta anos. Autodidata, aprendeu a tocar violão, acordeão e violino. Marqueteiro por excelência, astuto como ele só, percebeu na excentricidade do instrumento o violino o diferencial nas ruas, para chamar a atenção dos transeuntes, já viciados nos sons dos violeiros da cidade.

A alegria no seu semblante, intriga a todos nós. Ele reforça:” A música é divina- a alegria diária da ausência de revolta, da aceitação da própria condição, traz a paz. O sofrimento é objeto de nossa relação com o conhecimento. A resignação com a própria condição faz o coração se aquietar.”

Envergonhados nos despedimos e continuamos nossa jornada, com um gosto de saudade daqueles olhos feiticeiros do José Rosa, que nos embebedou com o suave licor da cana daquele moinho de energia.

Alcançamos a Praça da Sé e um pregador da Igreja Pentecostal, entre outros oito pregadores, nos fez estancar por ali.

Francisco Alves, de terno cinza e gravata azul marinho. Bíblia na mão, dedo em riste, caminha em círculos, vociferando os versículos e salmos com uma convicção inabalável.

O que parecia mais um daqueles cegos fanáticos, nos surpreende ao discorrer sobre Política, Mídia e os Illuminati.

Chegamos mais perto e Alves nos conta sua vida. Mora na Vila Nova Cachoeirinha e sai para pregar a palavra na Sé aos sábados. Novo, por volta dos 30 anos, trabalha como porteiro em alguns prédios e é separado da mulher e filhos.

Sua verborragia nos intriga. Há uma lucidez em seu discurso “hipnótico”….

É um daqueles oradores que catalisam  seu público. Faz da calçada seu púlpito e da bíblia sua batuta, qual maestro exímio, orquestra os passantes num banho harmonioso de fala e busca por coerência. Olhar vivo e penetrante, apesar da baixa estatura ele se destaca e discorre seguro sua argumentação.

Sob a égide dos parâmetros da Igreja Pentecostal, ele se derrama ao exibir seus conhecimentos de informática, YouTube e outras redes sociais, que embasam o testemunho sobre as verdades que acredita e prega.

Mas, particularmente, a mim, interessa seus eflúvios sobre os Illuminati, sociedade secreta da era do iluminismo, hoje referência de uma suposta Organização Conspiratória. O estabelecimento de uma nova ordem mundial, que controlaria os assuntos universais com o objetivo de unir o mundo em uma única regência que se baseia em um modelo político onde todos são iguais. 

Sou abalroada por pensamentos e sensações desencontradas e vislumbro o Alves, em veste de linho branco, descalço pelos pavimentos da Sé. E o som de sua voz, dá lugar às pítias e outros gregos do Oráculo de Delfos,que desfilam em minha visão onírica- Filósofos da Marginal – Rosa, através do seu violino. Alves através de sua “pretensa” crença.

Ambos portam “muletas” a justificar nossa jornada mítica do herói.

Não foi em vão. Rosa e Alves, nos salvaram da mesmice dos sábados paulistanos e nos transportaram para lugares inimagináveis.

Arrancaram à fórceps, qualquer preconceito ou estereótipo cristalizado em nossas células que explodiriam num tsunami de emoções desenfreadas.

A partir dali nada mais fazia sentido em nossa caminhada.

O nosso periscópio deu um freeze u na imagem “entusiasmada” de nossos sábios urbanos.

Entramos na Catedral da Sé, em busca de algum vestígio ou fagulhas daqueles olhares incandescentes.

Tateamos pelos jardins do Pátio do Colégio em busca de nossa salvação.

Batemos o sino várias vezes para nos lembrar da nossa inocência do passado em que a fé se acendia nas velas das procissões do santíssimo.

A fome bateu e nos valemos de São Jorge e tentamos nos anestesiar na cerveja original, daquela estranha filosofia que nos contaminou. E, seguimos, rumo à estação da Luz, ainda esperançosos de que lá encontraríamos algo que superasse o impacto daqueles encontros inusitados.

Descansamos um pouco no Parque, tentando nos maravilhar com as esculturas bizarras que se esparramaram pelos jardins.

E, desalentados e exaustos, voltamos para casa.

Não éramos mais os mesmos. As partituras de um violino perdido na multidão esvoaçavam em nossas mentes.

O farfalhar seco das folhas amareladas de uma bíblia gasta, estalava em nossos ouvidos como um bate-estacas.

Nascia um rio, em nossos corações, de uma hidrografia incomensurável, regada a sangue, suor e lágrimas, congelando as nossas veias e desencadeando em nós um céu de arco-íris em tons cinzentos, pelas lembranças dos filósofos da marginal e das armaduras que criaram para se proteger da morte e das profecias que anunciavam.

E, que, ao que tudo consta, estão “prestes” a se realizar.

O CONTO FILÓSOFOS DA MARGINAL ,NA CATEGORIA LENDA URBANA, FICOU DENTRE OS 10 SELECIONADOS DE 600 TRABALHOS DO BRASIL E DO EXTERIOR PELO DEPARTAMENTO DE LETRAS ,DO NÚCLEO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS –NEL DA FURB-FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU,SANTA CATARINA.

O TRABALHO CONTOU COM 42 AVALIADORES(38 deles Professores Universitários).

www.furb.br

ORGULHO LIGHT Shellah Avellar

Só queria me lembrar de alguma coisa bem macia…sabe…assim bem soft, tipo  quando você chega de um dia de trabalho super produtivo e se deixa jogar num sofá que é uma nuvem…cor de rosa, igual algodão doce, por que não?

Ou um banho de espuma com direito a fazer bolhas de sabão que inundam o banheiro, a casa toda, invade a vizinhança, toma a cidade e as estrelas.

Ou deitar na grama orvalhada, numa manhã, daquelas brilhantes de inverno, que não queima, mas dá o testemunho da grandeza da vida em sua plenitude.

É isto. Ah! Hum…mas, vem somada a uma espécie de Orgulho. Existe Orgulho do bem?

E, aí, Mano Criador? Segura esta!

Não é orgulho-gay. Não é orgulho-hetero.Não é orgulho- black.Não é orgulho- White.Não é orgulho-rich.Não é orgulho-poor.

E muito menos orgulho male ou orgulho female.

Por que será que tô misturando inglês com português?

Frescurinhas?? Não.

Acho que light é uma palavra realmente light.

Se é que isto pode expressar o sentimento, a sensação, o feeling de ter tido o privilégio de assistir às Aventuras de Abou, ou “Quando eu morrer vou contar tudo a Deus.”

Aquele Abou que num jogo de espelhos prismados pelo sol mais reluzente que a gente poderia se permitir imaginar, nos leva com ele e sua dog- bag pra viajar poraí afora.

Misturada numa platéia de crianças acompanhadas de seus pais e mães, eu assisti de camarote aqueles meninos ,ou melhor “os meus meninos” …ahhhh vai, deixa eu chamar eles  de “meus”.

Sá por que?

Porque vi estas crianças crescerem, não como a mãe natural ou adotiva, mas como uma espécie de “Mita da Quebrada “  de braços dados com a “Madona Negra” e Dioniso e abraçada às mães destes garotos. É eu sou metida mesmo. Eu vi um gueto de diamantes brutos.

Eu tive a bênção de ver extirpadas as durezas destas pedras preciosas prontas pra explodir em mil arco-íris.

Eu vi, minha gente! Cada gota de suor, ansiedades, muitas mágoas, corações acelerados, muita raça, muito cansaço. E, eu vi. Emergir de cada um deles um lótus de amor pela profissão. Sim, eu os vi ressurgir da lama da falta de oportunidades e da falta de reconhecimento

Mas, que profissão é esta, meus senhores?

Estar a serviço da arte, não é para fracotes.

É esculpir a ferro e fogo cada talento em suas múltiplas expressões, dia sim e outro também

Eu vi. Eu estava lá. Como observadora privilegiada da alquimia.

E, domingo, ali, calmamente imantada à massa de crianças, me vi naquela mala, brincando de ficar sem respirar junto com Abou.

Eu vi uma lágrima escorrer de emoção e orgulho dos olhos da Mãe África.

Eu vi o baobá nascer, engrossar suas raízes, que se enroscam nestes meninos de ouro, e os protegem .Estes meninos do Coletivo O Bonde, que merecem estar aqui e agora ,usufruindo desta calmaria e se deixarem levar pelas águas destes mares do planeta terra com direito a ir e vir pra onde quiserem estar.

É uma onda de rutilâncias que vem lavar a alma de todas e todos nós que nos permitimos ser abalroadas(os) por Abou e sua fértil imaginação,  através da sensibilidade e talento de Maria Shu que nos presenteou com a magia da fantasia que desmonta os horrores do preconceito e das guerras  e cava túneis  de luz  em tempos de desprezo.

#o AmorSIM

A imagem pode conter: 6 pessoas, incluindo Renata Éssis, Jhonny Salaberg, Ailton Barros e Filipe Ramos, pessoas sorrindo, pessoas em pé
A imagem pode conter: 7 pessoas, incluindo Filipe Ramos, Ícaro Rodrigues, Renata Éssis e Jhonny Salaberg, pessoas sorrindo, pessoas em pé e área interna
A imagem pode conter: uma ou mais pessoas
A imagem pode conter: 6 pessoas, incluindo Filipe Ramos, pessoas sorrindo, pessoas em pé e área interna
A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e noite



Quando eu morrer, vou contar tudo a Deus

Drama, Livre.

 Sinopse: A partir de uma manchete real de 2015, a peça conta a história do menino Abou, refugiado negro de oito anos que é encontrado dentro de uma mala de viagem tentando entrar ilegalmente em Ceuta, cidade autônoma da Espanha que faz fronteira com o norte da África através da fronteira Tarajal. Na sua imaginação, a mala se transforma na cachorra que nunca teve, Ilê, que divide espaço com um rádio quebrado e as histórias de Nyame, o Deus do céu. A imaginação fértil do menino Abou e sua curiosidade dentro de uma mala de 41×66 torna menos penosa sua longa viagem rumo ao planeta Europa e as estratégias de sobrevivência num mundo hostil e totalmente desconhecido.

Local: SESC Belenzinho (Leste)

Elenco/Direção: Texto: Maria Shu. Direção: Ícaro Rodrigues. Elenco: Jhonny Salaberg, Filipe Ramos, Marina Esteves, Ailton Barros (Coletivo O Bonde).

Data: até 14 de Abril; Sábado e Domingo, às 12h.

Preço: R$ 20,00

Gratuito para menores de 12 anos.

TUDO O QUE SEU MESTRE MANDAR Shellah Avellar

Escondidos em meio à vegetação da floresta, observávamos a anta que bebia à beira da lagoa. Suas costas estavam feridas, fundos cortes onde o sangue ainda se via. O guia explicou: “A anta é um animal apetitoso, presa fácil das onças. E sem defesas. Contra a onça ela só dispõe de uma arma, estabelece uma trilha pela floresta, e dela não se afasta. Este caminho passa por baixo de um galho de árvore, rente às suas costas. Quando a onça ataca e crava dentes e garras no seu lombo, ela sai em desabalada corrida por sua trilha. Seu corpo passa por baixo do galho. Mas a onça recebe uma paulada. “E assim, a anta tem uma chance de fugir”

Acho que a educação frequentemente cria antas: pessoas que não se atrevem a sair das trilhas aprendidas, por meio da onça. De suas trilhas sabem tudo, os mínimos detalhes, especialistas. Mas o resto da floresta permanece desconhecido. Pela vida afora vão brincando de Boca De Forno.”  Rubem Alves

Resultado de imagem para tudo o que seu mestre mandar faremos todos

Vivemos um momento inédito de mudanças e o conservadorismo e o retrocesso vêm como uma trombeta que anuncia um editorial do adeus às conquistas de direitos.

Vivemos mesmo estranhos tempos. Fala-se tanto em liberdade e nos amarramos cada vez mais em intrincados modelos tecnológicos que zombam da política de esquerda.

Não há como ter confiança alguma nos homens que a “força política” vigente se nos impõe.

Não há como acreditar nestes homens, quer nos falem de armas, quer de liberdades, uma vez que só conhecem a liberdade de receber proventos. E, com os quais não podemos fazer alianças, porque só nos deixam escolha entre a mentira e a baixeza.

Não há como esperar que se cumpra a Justiça, porque foi corrompido o sentimento da verdade, da equidade e da humanidade colocado acima das paixões humanas.

A Deusa Themis foi violada e sua venda é muito menos para espelhar a isenção e sim para “fazer vista grossa” ao bel prazer de alguns de seus emissários.

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Está liberada a dupla máscara do bufão e do lacaio, da delação e da traição. Carrega em seus ombros as dores cujas marcas são infligidas em seu nome.

Entretanto este ruído que ecoa de vários pontos do Planeta e esta angústia que vem engrossando uma horda de rancores e ódios, podem tornar-se o canto de uma terrível colheita.

Estamos no século XXI, no terceiro milênio, o que poderia ser absolutamente fantástico e é, se considerarmos alguns progressos em várias áreas do conhecimento e tantas vitórias nos campos tecnológico, virtual, eletrônico e nuclear.

Os cientistas estão absolutamente fascinados com as inúmeras possibilidades de proporcionar melhores condições de sobrevivência ao ser humano.

E o ser humano está cada vez mais interessado em consumir e se alienar dos “problemas nossos de cada dia”, nos entorpecentes de várias cores e sabores, cada vez mais sofisticados para nos deixar cada vez mais dependentes químicos dos prazeres das vitrines da vida.

E nós, brasileiros, nos deixamos ser ninados na zona de conforto das redes do “gigante adormecido”.

Poluímos nossos rios, lagos e mares e abusamos de nossos recursos hídricos como se fossem inacabáveis.

Devastamos florestas e depredamos plantações e dizimamos nossos indígenas como se fosse lógico.

Matamos nossos negros e negras todos os dias nas favelas, subúrbios e periferias.

Assediamos e violentamos nossas meninas e mulheres como se fosse natural.

Brigamos e exterminamos por conta da falta de respeito à diversidade de times de futebol, de ideologias de gênero, de discriminação de raça, de partidos políticos, de credos religiosos e de classes sociais, como se fosse óbvio.

Mas, como trazer para o aqui e agora essa nova realidade avassaladora?

Por que nos deixamos ligados no “automático” e que “seja o que Deus quiser”?

Se pararmos um momento para uma breve reflexão e olharmos para nossos desgostos viscerais e nossas escolhas radicais, veremos que não somos tão diferentes assim, no “entre si” de nós mesmos.”

Se observarmos o conjunto sistêmico de nossa família, poderemos concluir que ali naquele pequeno universo já se delineiam as diferenças e algumas irreconciliáveis.

Carregamos estes preconceitos e estereótipos para o nosso trabalho, nossas relações emocionais e nosso grupo social.

E, por conta destes recortes vai se estabelecendo a guerra ou a paz, segundo nossa capacidade de absorção da realidade, de nossa autoestima e de nossa habilidade em negociar, aceitar ou refutar os diferentes pontos de vista.

Se temos consciência disto, o fardo fica mais leve. Se não, podemos arrastar uma vida inteira de desavenças, amarguras e silêncios inquietantes que resultam em doenças e traumas.

E, ao não tomarmos posse da boa administração destas diferenças, alguém mais esperto e atento, fá-lo-á por nós.

E, assim, desde que o mundo é mundo, pelo que entendemos e estudamos ao longo das civilizações se estabelece o poder. E assim se estabelece quem manda e quem obedece.

Porque fomos educados para competir e não para compartilhar. A afirmação de sucesso é exibir cada conquista como se fosse única e ímpar.

Desde os primórdios do Egito cuja civilização manteve a hegemonia por quatrocentos anos no poder, uma vez que os casamentos aconteciam na própria família e esse sistema   inexpugnável se estendia às outras civilizações paralelas.

Mas, afinal qual o motivo de trazer aqui estes fatos que certamente já são familiares aos experts de história e ciência política?

Porque estamos vivenciando um momento sui generis na história da humanidade. Mas, como a Terra é redonda e gira no espaço ao redor do Sol, embora haja controvérsias absurdas ultimamente. As coisas voltam e, por vezes a vida imita a morte.

Desde o genocídio de judeus por Adolf Hitler, líder do Partido Nazista, Ditador do Reich e Führer da Alemanha de 1934 até 1945 e principal instigador da Segunda Guerra Mundial na Europa, não se percebia com tanta clareza, um movimento de possível horror com alguns elementos de similaridade.

Hitler era um ídolo fabricado por Paul Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda, que rapidamente conseguiu o controle absoluto da imprensa, arte e informação na Alemanha. Se utilizou do rádio e da produção de filmes para propagar a devoção por Hitler e o antissemitismo, bem como ataques ao bolchevismo e a tentativa de moldar a moral até instigar a segunda guerra mundial.

Ora, ora, todos nós sabemos que a publicidade e a propaganda elegeram Goebbels como gênio da manipulação das massas.

Mal sabia Marconi, que sua invenção para facilitar a comunicação entre embarcações se tornaria uma ferramenta poderosa para Goebbels e Mussolini em 1925.

Getúio Vargas também se utilizou do mesmo em 1930, institucionalizando a Hora Do Brasil. E Franklin Roosevelt em 1933.

Embora desde sempre se tenha trabalhado o poder da oratória e o carisma dos presidenciáveis e outros políticos, isto passou a não ser suficiente nos novos tempos.

E, como tem se desenhado o cenário das eleições desde 1952, quando o general Eisenhower contratou a agência BBDO para cuidar de sua imagem durante a campanha eleitoral.

Isto tudo aliado a pesquisas quantitativas e qualitativas de Institutos de pesquisa de opinião pública e estatística têm regido as campanhas que se digladiam a cada período eleitoral, bem como as guerras de marcas por pescar cada vez mais “consumidores” para seus produtos.

Mas, ainda assim, uma vez terminadas as eleições, se o exercício é democrático, todos os lados se arrefecem e dão uma trégua e cada um exerce o lugar de posição ou oposição com uma certa harmonia.

Entretanto, enfrentamos um diferencial nesta corrida eleitoral.

Estamos diante de um espetáculo de alianças muito bem articuladas para um Golpe de Mestre.

Há uma inteligência extremamente consciente e especializada no observatório por detrás do cenário.

Temos um “produto” totalmente destrambelhado mas muito bem “embalado”.

O Brasil sendo estudado há alguns anos. Nossa terra. Nossas riquezas. A docilidade e a hospitalidade do povo do samba, do suor, da cerveja, do futebol e das crenças religiosas.

Chamou a atenção da mídia internacional, um líder, intelectual orgânico, com grande poder de persuasão junto aos pobres e oprimidos. Com o apoio dos intelectuais, dos artistas, da Esquerda e da Igreja.

E agora, alguém que sabe o que faz e faz bem está no comando. Vamos fatiar os tipos que consomem o estranho líder.

Qual sua classe social, suas preferências, seus partidos, seus times, suas cores, seus ideais e suas mágoas.

Vamos desconstruir o líder e fabricar um outro, “fácil de ser manipulado”. Vamos dar a alguém de baixa autoestima um ilusório poder de comando. Enquanto isto nós nos articulamos com poderes internacionais nos quatro cantos do planeta.

Já identificamos as fragilidades da esquerda e principalmente suas potencialidades.

Copiamos e invertemos o jogo.

Compramos informações das várias fontes de várias “fábricas de perfis” tais como Facebook ,Instagram e Google.

Compramos o marketing digital dos whatsapp, hangout e twitter,já devidamente programados segundo os perfis de nosso eleitorado. Sabemos de suas preferências e aversões.

Vamos preparar um discurso para cada grupo fazendo emergir neles seus preconceitos escondidos. Através de um discurso vago. Pela empatia, vamos alimentá-los com o próprio engano e o propagando. Fazendo-os acreditar que existe remédio para a falta de sentido.

Vamos estimular o córtex pré-frontal ventromedial, situado no lobo frontal, que é “centro crítico” na representação de sistemas de crenças, fabricando informações falsas e obtendo adeptos com técnicas utilizadas nas Igrejas Neopentecostais e outras religiões fundamentalistas e no treinamento de kamikazes.

Vamos “quebrar as pernas dos artistas” que sempre se estabeleceram contra nós, cortando os patrocínios, editais e ministérios de Cultura, bem como os espaços de exibição do Sistema S(SESC, SENAI, SESI e SENAC)para que fiquem sem trabalho e sem voz.

E tudo em nome de uma nova ordem mundial e articulações com os Estados Unidos e a Rússia, promovendo guerras consentidas na América Latina colocando irmão contra irmão.

Vamos entregar de bandeja nossas riquezas e deixar “o circo pegar fogo”, estimulando os nossos adeptos a fazer por nós “o serviço sujo”.

Enquanto os “peixinhos caem na rede”, vamos endurecendo leis, anulando a educação, aviltando a saúde e encurtando privilégios até que sejam todos “infelizes para sempre”.

E, nós, diante do jovem insolente, com revólver no bolso evocamos a não-violência de Gandhi, para poder deixar falar o silêncio.

Mas a nossa indignação, a nossa criatividade e a nossa alegria vão encontrar alternativas para desmascarar o blefe.

Permanecerão vivas as artes e a literatura contra o deserto das páginas brancas.

Há de se erguer um domínio do espírito e da sensibilidade completamente em movimento, em novas relações e novos renascimentos.

Exorcizaremos os demônios da ignorância e da tragédia anunciada com a Arte, e com as guerrilhas da solidariedade e com ela desvendaremos o enigma da manipulação e nos inscreveremos na história traçando um novo arco do triunfo da verdade.

E, ao invés de fazermos tudo o que “Seu Mestre Mandar”, nos transformaremos em  nossos próprios mestres.