Mulher: A rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa Shellah Avellar

“Rose is a rose is a rose is a rose” Gertrude Stein

Preâmbulos femininos

Não somos livres para escolher o próprio assunto. Este se impõe. Se apodera de tudo.

A preparação psicológica pitoresca ou grotesca se dilui na intenção da narrativa.

Ideias se esvaem. Mergulho no escuro. Não enxergo senão a complexidade do tema: mulher e seu dia internacional em 8 de março.

Só isso já vai descompassar o ritmo da minha existência por alguns instantes. É preciso revirar cada palavra, num desatino de ator na troca de vestimentas e personagens em cena.

Será que diluindo o drama de se meter na obra “mulher”, redescobrindo a mim, compreenda cada nuança e não me julgue?

Pobre mulherzinha! Este montículo de segredos. Esta metáfora devorada pela eterna comparação entre seus pares e seus ímpares. Estes seios ofegantes. Coração aos pulos.

Cabelo de xale esvoaçante, que silenciosamente descobre sorrisos e desvenda lágrimas em trabalho de parto.

Melancolia da paixão. Lábios de romã. À espera de um longo e cálido olhar que a faça se sentir interessante.

Arte inventada na arena. E desconstruída por mágoas, traições e ansiedade.

Fada que transpõe o cotidiano para o maravilhoso. Poesia geométrica. Geometria desalinhada em rendas, sedas e veludos.

A mulher tem uma métrica mágica. Pormenores privilegiados. Cada uma tem sua poética. E é preciso encontrá-la. Feliz de quem a decifra. E finge não fazê-lo. Para preservar a obra-prima. A matriz da vida.

A triste realidade

As diversas formas de violência contra a mulher ainda estão presentes, assim como mecanismos de controle e de reprodução das desigualdades, constituindo-se em método para intimidar e subordinar a mulher, mantendo o desequilíbrio de poder nas relações e marcando a dominação masculina. Para conviver com essa realidade, ela “finge” não entender a “cantada” do chefe, ou do colega de trabalho, para garantir o emprego e ainda cala no peito o grito de suas mazelas, para não prejudicar ou assustar os filhos, quando maltratada pelo marido ou companheiro.

Até recentemente, no Brasil, antes de o novo Código Civil ter sido sancionado e publicado, o homem ainda era considerado o chefe da sociedade conjugal.

Esse pensamento estava respaldado pela ciência e medicina social, que atribuía à mulher certas qualidades, como fragilidade, recato, predomínio das faculdades afetivas sobre as intelectuais, a vocação maternal.

Ao homem era atribuída a força física, natureza autoritária, empreendedora, racional, sexualidade sem freios. Tal conceito justificava que se esperassem das representantes do sexo feminino atitudes de submissão e um comportamento que não maculasse sua honra.

Dessa forma, existia uma forte repressão àquelas cujo comportamento fugisse às normas próprias da “natureza feminina”, ou seja, que não seguisse as regras estabelecidas e, na maior parte das vezes, a violência estava presente.

No princípio, era a parceria

“Na aurora da humanidade não podemos falar na existência de desigualdades entre o homem e a mulher. Naquele tempo, não existiam povos, nem Estados separados; os seres humanos viviam em pequenos grupos (hordas) e, depois, em famílias e tribos. Os seres humanos precisavam se manter agregados, solidários entre si, para sobreviver e se defender dos animais ferozes e das intempéries. Quem se marginalizava perecia. Logo, não havia uma superioridade cultural entre homens e mulheres”, pontua Zuleika Alambert, escritora e política brasileira, feminista histórica, no livro “História das mulheres no Brasil” (Editora Contexto, 2004). Ambos eram nômades e caçadores.

O primeiro passo na evolução da sociedade humana aconteceu a partir da formação das genes comunitárias, que se constituíam de grandes uniões de grupos humanos vinculados por parentesco, que se dividiram em clãs.

Nesse tipo de organização pré-histórica, explica Zuleika Alambert no livro citado, “a mulher trabalhava a terra, domesticava animais, cuidava das crianças, velhos e doentes, além de criar vasilhames, utilizar o fogo, preparar unguentos, poções, enquanto o homem ia à caça de alimentos”.

Embora fosse detentora de mais poder que os homens, vivia em regime de parceria com o sexo oposto. Nesse período, época em que a agricultura era a principal atividade da humanidade, acreditava-se que a mulher tinha poder mágico, o dom da vida, sua fecundidade fazia a fertilidade dos campos. Ela reinava, sim, como deusa. E hoje?

Os chefes da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), do Programa Mundial de Alimentos (PMA) e da Organização Internacional do Direito para o Desenvolvimento (IDLO) — esta última não vinculada ao Sistema ONU — destacaram a ligação entre a violência baseada no gênero e o desenvolvimento, em particular como isso afeta a segurança alimentar dos países em desenvolvimento, onde as mulheres constituem mais de quarenta por cento da força de trabalho agrícola.

A luta

Nas últimas décadas, a mulher, por meio do movimento organizado, tem conseguido muitos avanços, provocando transformações em todo o mundo, alterando suas condições de vida, o imaginário social e o comportamento em sociedade. Buscando condições mais dignas, igualitárias e justas, desbrava territórios antes exclusivamente masculinos, conquistando definitivamente espaços no mercado de trabalho e de participação política.

Expõe sua opinião e enfrenta desafios; denuncia injustiças em nome da coletividade ou ainda supera seus próprios dramas de vida, a miséria, a fome, a doença, as perdas emocionais e pessoais.

Hoje, como ontem, há exemplos de mulheres que transformam seu cotidiano, que vão à luta em busca de melhores condições de vida para si e sua família, enfrentando a violência concreta das ruas, para chegar a seus locais de trabalho. Um desses exemplos vem de muito longe.

Presente dos gregos

Hipátia de Alexandria (nascida aproximadamente em 350 d.C.), neoplatonista grega e filósofa do Egito romano, foi a primeira mulher documentada como matemática. Chefe da Escola Platônica em Alexandria, também lecionou Filosofia e Astronomia.

Algumas pesquisas apontam que o homicídio de Hipátia, em 8 de março de 415, resultou do conflito de duas facções cristãs: uma mais moderada, comandada por Orestes, e outra mais ortodoxa, seguidora de Cirilo, responsável pelo ataque.

Criada em um ambiente de ideias e filosofia, tinha forte ligação com o pai, que lhe transmitiu, além de conhecimentos, a forte paixão pela busca de respostas para o desconhecido. Conta-se que Hipátia também seguia rigorosa disciplina física, para atingir o ideal helênico de ter a “mente sã em um corpo são”.

Reconhecida pela capacidade de solucionar problemas, era procurada por matemáticos confusos que precisavam de uma solução. E ela raramente os desapontava, obcecada que era pelo processo de demonstração lógica.

Jamais se casou. Questionada sobre isso, afirmava que já era casada com a “verdade”.

Nenhuma obra, reconhecida pelos estudiosos como de autoria de Hipátia, sobreviveu. Muitas delas foram atribuídas a seu pai, Téon de Alexandria.

Esta modalidade de incerteza autoral é típica dos filósofos do sexo feminino na Antiguidade.

Portanto, faz-se necessário remover a mulher da posição de obscuridade em que ela se tem mantido por séculos nos livros e compêndios tradicionais de história. Afinal, sem ela, a história, como tem sido escrita, fica incompleta e, inevitavelmente, incorreta.

“Defende o direito de pensar. Porque pensar de maneira errônea 
é melhor do que não pensar.” Hipátia de Alexandria

Breve histórico

A ideia da existência do Dia Internacional da Mulher surge na virada do século XX, no contexto da Segunda Revolução Industrial e da Primeira Guerra Mundial, quando ocorre a incorporação da mão de obra feminina em massa, sobretudo na indústria têxtil, em tecelagens. As condições de trabalho, insalubres e perigosas, eram motivo de frequentes protestos por parte dos trabalhadores. Muitas manifestações ocorreram nos anos seguintes, em várias partes do mundo, destacando-se Nova York, Berlim, Viena e São Petersburgo.

O primeiro Dia Nacional da Mulher foi celebrado em maio de 1908 nos Estados Unidos, como parte de uma manifestação por igualdade. No ano seguinte, a data instituída, pelo Partido Socialista norte-americano, foi 28 de fevereiro.

Em 1910, durante conferência internacional de mulheres socialistas, em Copenhague (Dinamarca), foi aprovada proposta da alemã Clara Zetkin de instituição de um dia internacional da mulher, embora nenhuma data tivesse sido especificada.

No ano seguinte, o Dia Internacional da Mulher foi celebrado a 19 de março, por mais de um milhão de pessoas, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça.

Poucos dias depois, a 25 de março de 1911, sábado, um incêndio no edifício da indústria têxtil Triangle Shirtwaist, em Manhattan, Nova York, mataria 146 trabalhadores – a maioria costureiras e imigrantes. O número elevado de mortes se deveu às más condições de segurança da edificação. Este foi considerado o pior incêndio da história de Nova York, até 11 de setembro de 2001.

Para Eva Blay, socióloga e professora brasileira, é provável que a morte das trabalhadoras da Triangle se tenha incorporado ao imaginário coletivo, de modo que esse episódio é, com frequência, erroneamente considerado como a origem do Dia Internacional da Mulher. Hoje, o local onde se deu o incêndio abriga instalações da Universidade de Nova York.

O trágico incêndio na Triangle Shirtwaist deu início a mudanças na legislação trabalhista nos Estados Unidos, mas segue como exemplo contundente da desalmada natureza do capitalismo; movimento reivindicatório teve participação feminina importante, como na foto abaixo, de 1909

O dia 8 de março, como Dia Internacional da Mulher, tem relação com o movimento de reivindicação e de revolução na Rússia, em 1917, segundo o livro “As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres”, de Ana Isabel Álvarez Gonzalez (Editora SOF/Expressão Popular, 2008). Naquele dia 8 de março (dia 23 de fevereiro, pelo calendário Juliano, adotado então na Rússia), 90 mil operárias se manifestaram contra o Czar.

Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) começou a celebrar oficialmente o Dia Internacional da Mulher a 8 de março, mas sugeriu, a partir de 1977, que cada país-membro escolhesse seu dia, segundo a cultura e a política local, para defender e reafirmar os direitos da mulher.

Ouça aqui “One Woman”, canção que lembra a luta feminina em todo o mundo:

Justiça seja feita

Quando se pretende realizar pequenos ou grandes feitos, é necessário começar por algum lugar.

O caso 12.051/OEA, de Maria da Penha Maia Fernandes, se transformou no caso-homenagem, gerador da Lei 11.340 no Brasil, a chamada Lei Maria da Penha. Ela foi vítima de violência doméstica durante seis anos de casamento. Por duas vezes,o marido tentou assassiná-la. Primeiro, com arma de fogo, deixando-a paraplégica, e na segunda, por eletrocussão e afogamento. Após essa tentativa de homicídio, ela se armou de coragem e o denunciou. O marido de Maria da Penha só foi punido 19 anos depois e ficou apenas dois anos em regime fechado.

Baseado nisso, o Centro pela Justiça e pelo Direito Internacional (CEJIL) e o Comitê da América Latina e Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM), juntamente com a vítima, formalizaram uma denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), órgão internacional responsável pelo acolhimento de comunicações decorrentes de violação de acordos internacionais.

Essa lei foi criada com o objetivo de impedir o assassinato e agressão e de proteger os direitos da mulher. A Lei Maria da Penha veio para ser cumprida. Portanto, mulheres, estejam atentas!


Da esq. para a dir.: Maria da Penha; Ellen Gracie, à época ministra do Supremo Tribunal Federal; e o então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a cerimônia de sanção da Lei Maria da Penha, em agosto de 2006

Redenção

É preciso se habituar a perceber algo nas mulheres que nos cercam, como nos livros a ser devorados.

Estudá-las. Compará-las. Cabe a nós tirar, destes divinos instrumentos, os sons que nos arrebatam ou nos apavoram. Compreender cada uma e não julgar nenhuma. A sua verdade está em tudo, nos mínimos detalhes. Ela nos diverte com suas agonias. E nos entristece com seus gozos. Muitas delas, neste momento, sofrem horrores atrozes, em muralhas de lares aparentemente felizes ou em aldeias miseráveis.

Num trabalho atroz, ou numa gaiola dourada. Quantas mentiras isto supõe? Quantas manobras não inspirassem temor ao próprio diabo?

Nos entusiasmam. Irritam. Ou ferem. Heroínas ou vilãs. Alquimistas de caçarolas. Alarido de máscaras e estilistas. Suspiros contidos. Farfalhar de saias e bater de asas.

Burguesas ou libertinas. Revolucionárias ou passivas. Borrasca ou calmaria. Chuva fria e sol escaldante. Ferida e bálsamo. Dia após dia. Primavera após inverno. Verão depois outono. Vai-se indo embora. Escorrendo pelos cremes. Ou se esvaindo em sangue. Lutando como feras para defender suas crias. Ou se enlanguescendo, num átimo de amor perdido no tempo.

De saltos altos. Sandálias rasteiras. Ou pés descalços. Sabor de mel ou de arsênico na boca e na alma. Malícia e inocência. Elas resistem. Mantêm pulsante a sociedade.

Apesar do bullying. Apesar da violência. Do marketing avassalador. Da politicamente incorreta e nefasta deturpação de seu sentido maior, que é celebrar o útero da Criação onde se molda o caráter de um novo homem. Mais dócil. Mais terno. Mais ser humano.

Neste seu dia, que são todos os dias e todas as horas de um calendário eterno em que se escreve e se perpetua a história da humanidade,a gente sussurra: obrigada.

Imagens:

1. Hipátia de Alexandrina: Desenho de Jules Maurice Gaspard

2. Incêndio na Triangle Shirtwaist: Jornal de época

3. Mulheres costureiras em greve: Coleção Everett

4. Sanção da Lei Maria da Penha: Ricardo Stuckert/Presidência da República

O PLANO É NÃO TER PLANOS shellAHAvellar

Olhar límpido ,sonhador, fala mansa ,quase “soft”,mas absolutamente segura ,marchando em busca do invisível,Roberta Forattini Altino Machado -como ela faz questão de frizar -para mim ,apenas Roberta, uma ariana ,”em sua mais completa tradução”.

Roberta vai se esparramando no desmanchar da argila que formatou a estrutura da filha mais velha de Tradicional Família Mineira, que desde cedo trouxe pra si a responsabilidade de gerir sua própria identidade ,reinventando a si mesma e quebrando os paradigmas da aristocracia sedimentada em seu entorno.

Redescobrindo os heróis internos ,moldou uma família imaginária

em suas vísceras para temperar no caldeirão das entranhas uma receita que lhe permitisse sobreviver à pressão da sociedade hermética de seu tempo.

Cumpriu sua missão de mãe extremosa, esposa dedicada,misturando nas conversas ao pé dos fogões à lenha,os ingredientes que iriam esculpir a Roberta de hoje:Livre ,Total e Irrestrita!

A Roberta quixotesca, que hoje rompe as muralhas de seu pragmatismo interior, quebra as porcelanas das aparências auto-impostas, se despe dos botões sempre fechados,dos scarpins e dos tailleurs ,repetindo Isadora Duncan, cria uma nova dança em sua vida,com pés descalços e vestes diáfanas como a sua transparência.

Paga pra ver o preço da verdadeira liberdade:explorar seus talentos ,acreditar neles e deles extrair seu sustento.

Recomeça devagar,quase parando,imperceptivelmente,sem chamar muito atenção,com seu jeito mineiro de ser e estar,exercitando o ócio criativo de reescrever sua história.

História essa,na qual  entrevejo o Happy-End, e o privilégio de verter o saboroso licor da Arte em sua legítima manifestação.

O requinte da simplicidade garimpado no dia a dia de quem sabe pra onde vai,como vai e porque vai.

Cinco  anos depois,aguardando na fila da Livraria mais renomada da Metrópole,observo de longe ,na agilidade em elaborar os autógrafos,o mesmo brilho dos olhos de outrora, ofuscando as luzes fitícias da cidade,lá está ela:Roberta Forattini Altino Machado-replanejou a sim mesma, sem planejamento algum.

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ROSÁRIO DE MEMÓRIAS shellAHAvellar

A desolação do grupo de amigos era evidente. Diferente da animação da partida rumo à Cordilheira dos Andes,numa expedição que prometia ser o acontecimento extraordinário de  suas vidas.E deu-se o trágico –o helicóptero caiu,ferindo alguns e afetando a ânima da equipe.

Fazia muito frio.O vento gélido fazia todos se encurvarem ,vestidos nos capotes e se encostando uns nos outros para produzir calor humano.

A grama da montanha em que fizeram o pouso forçado estava toda coberta de uma fina camada de gelo.

Contrariando o sombrio desapontamento de todos,a manhã ensolarada exibia um céu profundamente azul.

Sem comunicação com a civilização.Desalentados.

O piloto ,bastante ferido,propôs que cada um falasse sobre suas lembranças afetivas ,para povoar suas mentes de positividade.

Alexandre ,lembrou de sua cadelinha Merengue,que aquecia seus pés ,nas noites frias ,dormindo no sofá,assistindo a um bom filme na TV.

Guilherme,relembrou  os saraus de Literatura em Campos do Jordão,sob as mantas de lã e do bouquet do vinho tinto da adega de seu avô.

Catarina evocou as chuvas de Seattle ,quando se abrigava na casa de amigos,curtindo o grunge.

Camilla suspirava lembrando do sítio em Lourenço da Serra, e das idas com sua família para o strogonoff de sua avó.

Lucas ,engoliu em seco,com saudades do chopp preto quente e as cantorias dos alemães das Tabernas de Frankfurt.

Lívia se lembrava do fogões à lenha fumegantes da fazenda de seus avós ,com seus  tios e primos  em Barueri.

Shellah ,cantarolava melancólica uma bossa-nova, recordando o  sol de Ipanema e as caipirinhas de Grumari no entardecer ,ao som de Chico e Tom.

Roberta,tentava sentir o cheiro dos pãezinhos de queijo crocantes,que animavam o café das suas  tardes mineiras.

E,assim,um a um,foram desfiando suas lembranças,compondo um cordão de contas luminosas ,que iluminaram os céus dos Andes  e seus rostos ruborizados pelo vento frio e seco.

E ,no brilho dos olhos marejados pela emoção,ressurgia a esperança ,no ruído das hélices do socorro que se aproximava.

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PARAÍSO ?!? shellAHAvellar

Rua Vergueiro – Paraíso , zona sul de São Paulo. Nome sugestivo. Embora o cenário desta típica rua paulistana numa sexta-feira ,às 17 :30 h  esteja muito longe disso. Afinal, este corre-corre , o” lufa-lufa” paulistano tem seus encantos. Mas, Paraíso? Não! Não hoje , nem aqui neste instante.

O apelo do marketing vai colorindo os out-doors e os muros ,poluindo visualmente a rua. A paisagem dos prédios ,sem um ritmo certo ,silhuetam mãos,pernas e cabeças que resultam numa enigmática obra de arte.

Uma pomba aterrissa quase em meu ombro e logo toma o céu de novo, e me faz olhá-lo demoradamente. Paro.Me viro na direção do sol branco e macio das tardes de outono.Respiro profundamente .Me deixo invadir pelos raios e me  sinto aquecida de novo.

Penso..Cada indivíduo é um universo em si.Quantas alegrias ,quantas tristezas…Quantas histórias passam por mim neste ir e vir de tempestades humanas. Gentes observam gentes. Ou não?A rotina nos deixa indiferente aos detalhes.A pressa desumaniza?Ou desencanta??   São Paulo não pode parar!

Um flash me chama a atenção :” Espelhos anti-bala!” …Reflexo da violência..Por um segundo acuso o contraste.O sol me cega. Me faz esquecer.. Mas,olho para os lados,seguro mais firme a bolsa e vou-me embora…”com meus terrores até que os ensine a cantar”…

O EPITÁFIO DE CAMUS shellAHAvellar

Por entre vídeos, aquarelas, fotografias, pinturas, instalações interativas e toda espécie de manifestações artísticas da 29 Bienal de Arte de SP,finalmente me sento.

Sossego no tapete em homenagem a Camus.

Me sinto como se estivesse visitando seu túmulo.

E o epitáfio seria:

“Para por aqui, Albert Camus, personagem despreocupado da vida, sem aspirações para o futuro. Alguém que escreveu aquilo que realmente estava sendo vivido e pensado.

A revolta cultivou a  experiência que concretou meu sonho do “aqui e agora”.

A minha felicidade foi conquistada na parceria íntima com o absurdo – o vazio de onde tirei  sentido para preencher minha vida.

Quanto a vocês que ficam, se possível,descansem em paz.”

UMA IMAGEM VALE MAIS QUE MIL PALAVRAS ? shellAHAvellar

Poderia me reportar ao quadro a quadro das  fotos,que vamos tirando ao longo do caminho.

Se montarmos cuidadosamente o filme das marcas e cicatrizes sulcadas em nossos rostos, palavras ou legendas são desnecessárias. Obrigatòriamente paramos para pensar.

Não nos damos conta de  quanto o relógio da vida marca em nossos órgãos ,em cada veia que pulsa.O moto contínuo das batidas dos nossos corações vai badalando nossas emoções por aí a fora, e vamos nos esquecendo de olhar no espelho de nós mesmos

Aliás este é o grande “barato da vida”:passa ,e a gente não vê.

Na verdade, no dia em que nascemos, começamos a morrer um pouco.

A cada aniversário, apesar das festas ,abraços e alegrias,estamos ficando mais velhos e também mais experientes no exercício de viver.

Porisso,  havemos de cuidar para ter bons guias no início da da jornada.Para aprendermos a caminhar sozinhos e livres ao encontro de nosso destino aqui no Planetinha.

As nossas fotos (3×4) nos darão os parâmetros da nossa viagem.Olhando-as de vez em quando, podemos avaliar a quantas andam nossas impressões e  expressões individuais e coletivas.

Podemos nos dar o direito de parar o bonde para refletir e melhorar nossa caminhada.

Nem sempre a saída está na auto- permissão de quebrar as correntes de nossos infernos astrais e terrenos.

A conquista da Liberdade! De renascer cada dia, conscientes de que, cada centésimo de segundo ,um flash de existência ,é único.

Para Marcello Martins,Um Velho  Homem Novo

VALE DO ANHANGABAÚ AO ANOITECER shellAHAvellar

Aqui estou num banco de praça no Vale do Anhangabaú. Cai a tarde. Um manto azul profundo cobre o dourado do sol que vai descansar.

À imagem e semelhança do paulistano, que parece desacelerar um pouco, para, em seguida, retornar seu ritmo alucinante.

As luzes, lentamente salpicam as praças, as ruas e prédios de formas cintilantes e fosforescentes, nos tons variados de luminescências que o branco pode ter.

As primeiras estrelas dão sinal de vida com faróis a piscar para olhos desprendidos do burburinho da metrópole.

Os arranha-céus se despem de sua imponência, quando suas dimensões gigantescas se transfiguram  em silhuetas que, em breve se diluirão na noite.

As árvores frondosas e verdejantes agora são fantasmagóricas. Algumas ameaçadoras, outras, sortudas, são contaminadas por algum tênue raio de luz artificial e dão o ar de sua graça.

A noite começa em São Paulo.

No entanto, apesar do barulho das buzinas, das riscas incandescentes dos faróis, há uma organização estabelecida neste caos aparente. Cada um sabe para onde vai e planejou. Ou não. Mudam de idéia no meio do caminho. Outros que não sabem para onde vão. Simplesmente se deixam ficar ali. Como mero espectador deste magnífico show de efeitos especiais, de escuro e claro, de movimento e estagnação.

Aproveito para escrever um postal para os  amigos  do RIO.

Aqui estou, galera!

Estrangeira na pátria amada. Salve, Salve, Sampa!

O azul profundo vai engolindo o meu  astro predileto. Sinto falta dos aplausos pros poentes cariocas. Cai a tarde. A noite vem. Os gigantes de mil olhos acendem suas íris. O cheiro de gasolina me impede o resgate do cheiro do mar. O barulho das buzinas abafa o ruído das ondas que se quebram na minha memória.

Mas, fecho os olhos. Encaro o céu e deixo rolar. As estrelas me mostram o caminho de casa..Vim para ficar…

TRAZIDO PELA LUZ DE COXIXOLA shellAHAvellar

Criado sem escola, alfabetizado pela vida. José Alves Apolinário, codinome Jurandir, por causa da morte do primogênito de Sebastião e Inácia, morto um ano antes do nascimento do personagem principal deste roteiro. Assim, sua história já carrega certo mistério, em momentos de realidade fictícia, em que o tempo não é nem linear, nem rápido, nem lento, nem circular, mas parece haver se volatizado em Coxixola, município do interior da Paraíba, a 247 quilômetros da capital, João Pessoa, nos anos 1950, quando Jurandir botou a cara neste mundão de meu Deus.

O nome, de origem tupi-guarani, que significa “trazido pela luz do céu”, parece justificar a apropriação do nome do irmão e o enterro, como ele mesmo diz, do “Zé em seu lugar, registrado no cartório de Deus”.

Cabelo preto, liso e comprido. Porte ereto. Olhar de um brilho intenso em noites abissais. Fala mansa. Um tanto tímido, mas decidido. Não se sente, nem busca ser melhor, nem pior que ninguém. Parece índio. Se diz índio. É um índio.

Infância a lenha

Os dias se passavam em Coxixola, numa época sem as modernidades da eletricidade, numa casa de taipa e pau a pique. O fogão a lenha, de duas bocas, fumegava ao alvorecer. O milho cozido, o xerém (cuscuz de milho), o curau e seus derivados e a coalhada de leite de cabra eram os acepipes da família, que madrugava para ir à roça garantir o sustento.

O almoço era feijão com farinha, que lhe conferiu a estrutura que o mantém saudável e forte até hoje. De vez em quando, mas muito raramente, tinha carne de bode ou de carneiro, mas arroz nem pensar. Era artigo de luxo. Só no Natal.

Algumas vezes, caçavam codorna, tatu e lagarto para dar um colorido diferente à rotina.

No entardecer, de volta para casa, repetindo o cardápio do café da manhã, o avô índio João Apolinário enriquecia o imaginário da criançada com histórias de cangaceiros, acumuladas em seu passado nativo de tribo desconhecida de Jurandir, traindo a memória, que o tempo, seu grande inimigo, vai destruindo.

Em volta da fogueira, nas noites iluminadas pelo céu estrelado do sertão, o avô mastigava raízes, macambira e coco. Fiel à tradição indígena, embalava os sonhos que nasciam nas camas de madeira com colchão de palha de banana, construídas por eles mesmos.

A infância corria solta pelo mato, nas brincadeiras de senhorio, traduzidas pela cultura coxixolense. Se inventava curral de pedras, onde se juntavam os ossos que simbolizavam os bois, as vacas, os jumentos e os jegues negociados ao dinheiro de papel de cigarro, ao qual se atribuía valores de moeda corrente no país naquela época. Continental a 5 cruzeiros, Hollywood a 2 e Astória a 1.

Num capitalismo de cordel, já se revelava o futuro empreendedor, marca dos nordestinos que avançam na cidade grande. Sonhava com o poderio das famílias de fazendeiros, que davam o “ar de sua abastança” no povoado local. Famílias que hoje ainda se aboletam por lá, em cargos municipais vitalícios, garantidos pelo mesmo nepotismo de outrora.

Quando os bichos e os moleques se feriam, tomavam o caxete (comprimido) de cipasol, melhoral e meramicina para tirar o aperreio das dores em geral. Mas quando o caso era traquinagem de torar um braço, tinha mesmo de chamar Dona Chiquinha, a benzedeira. Por causa disso, certa feita, moleque, Jurandir recorreu à rezadeira, que fez uma pasta de clara de ovo e carvão em cinzas, que amarrava com casca de cajueiro, e todo dia botava trouxinha do emplastro com panela de água quente no machucado. Costurava e regava com uns galhinhos. Orgulhoso, hoje exibe o braço, sem nenhuma sequela. Ele reforça: “A fé cura a gente”.

Os dentes eram arrancados sem anestesia pela mãe, o que lhe garantia uns quatro dias de repouso para amansar a dor. A pasta de dentes era a raspa de juazeiro e a escova, o dedo.

As investidas nos jogos de amor começaram cedo, de 9 para 10 anos, no mato, onde a meninada praticava a sem-vergonhice própria das funções varonis. E se esquentava à noite, de óleo de coco no cabelo, no arrasta-pé azuretado, ao som do forró “pé de serra”, tradicional do sertão, com sanfona, triângulo e zabumba.

Só tinha de cuidar de não tirar a virgindade das moçoilas. Ou casava, ou o cabra era jurado de morte. E também tinha de casar, preto com preto, branco com branco, rico com rico e pobre com pobre. Se saísse desta dobradinha imposta pela tradição, o cabra estava lascado.

O rádio assumia a responsabilidade de traçar formas e conteúdos do mundo lá fora. E a “Hora do Brasil” mantinha o povo muito bem “informado”. Pelo fio tênue do onírico exalava o som de Luiz Gonzaga e Genival Lacerda. Teve até show ao vivo numa difusora instalada num jipe.

 

O último pau de arara

Os dias corriam plácidos e horizontais. Então, deu aquela vontade de ganhar o mundo, conhecer novas terras. Essa inquietação fez Jurandir, já moço feito, aos 20 anos, sacudir a poeira de Coxixola e pegar o pau de arara para o Rio de Janeiro.

Ficou uma semana em Botafogo, na capital, mas sua alma de índio o levou para São Pedro da Aldeia, antes que o vazio da vida moderna se instalasse de vez em seu âmago.

Trabalhou na lavoura, por cinco anos, plantando mamão, laranja, limão e fruta do conde, numa fazenda a trinta minutos da cidade. Depois mudou-se para lá, onde trabalhou, por quatro anos, como padeiro, com carteira assinada. Aí, animado, diz que aprendeu a viver. Até então, não tinha noção do que era.

Voltou para Coxixola. Passou dois meses e regressou de vez, direto para São Paulo. Ficou na casa de um amigo em Cangaíba, na zona leste, e trabalhava numa padaria na Vila Mariana, na zona sul.

Depois, noutra no Brooklin, também na zona sul. Investiu então em duas linhas telefônicas. Um negócio da China. Vendeu e comprou este barzinho, principal locação deste roteiro, que abriga sua história e sua vida.

O CD-Bar de Jurandir

Sempre gostou de música. Começou tocando forró, depois brega sertanejo. Hoje tem amplo acervo em seu bar, do qual perdeu a conta exata, com mais de cinco mil títulos de CDs e DVDs nacionais e internacionais, de todos os estilos.

Pelo CD-Bar já passaram Luiz Airão, Bruno & Marrone, Miltinho (Baterista do Jô), Rubinho do Zimbo Trio, entre outros que vão lá à guisa de pesquisa de sons.

O Bussunda, do “Casseta & Planeta”, batia ponto na feijoada de sábado. Deixou saudades no cenário nacional e na mesa cativa do CD-Bar.

Aqui se misturam classes de A a Z, que desfilam, todos os dias, em busca de novos arranjos, ritmos, balanços, tenores, barítonos, sopranos, harmonias e linhas melódicas.

Os professores e alunos da Escola de Música Tom Jobim se revezam e volta e meia estacionam no CD-Bar. Tem dia que vende até 100 CDs, para clientes variados.

Tem gente que vem há mais de 20 anos, para o lanche, o salgadinho, o almoço, a cerveja, o café ou o papo amigo para abstrair da correria.

É distribuidor juramentado de grandes distribuidoras, como a Universal, a Estação CD e a Atração. Atende pedidos pelo telefone e pessoalmente. Continua pesquisando. Observa e aprende com os clientes. E vai trazendo o que o povo pede.

Depois de um relacionamento de 20 anos, do qual herdou dois filhos, com quem, infelizmente, hoje não mantém contato, inaugurou outro romance. Wania, pernambucana arretada, veio chegando de mansinho para o cafezinho de todo dia. E deu-se o encontro. Já há 15 anos, com mais dois filhos, Lucas e Sue Ellen. Tem muitos amigos na casa própria, perto do Terminal João Dias, ali na zona sul, que engrossam a família. A rotina é de casa para o trabalho, do trabalho para a casa. Três vezes por semana, vão à Igreja Universal, depois que Jurandir fecha a loja-bar. Nos fins de semana, o destino são as churrascarias e os shoppings. De vez em quando, um show de Zezé Di Camargo e Luciano. Viajam às vezes, nas férias, apenas por quatro dias, e voltam correndo para o bem do negócio.

Jurandir diz que, se tivesse vindo mais cedo para São Paulo, seria um homem muito rico. Tal qual seu pai, que largou tudo para trás, foi para Minas Gerais, constituiu nova família e se perdeu de Coxixola e das raízes.

A felicidade, conquistada no exercício de uma vida simples, é exemplo de harmonia e tranquilidade. Seres fora do comum dentro da sua maneira de ser comum.

A vida impôs aos CDs e DVDs valor também sentimental, espécie de dignidade humana. Fórmula talvez derivada do romantismo de sua adolescência.

Ao som de “quando eu estou aqui, eu vivo este momento lindo”, na voz de Roberto Carlos, me despeço, com a cabeça cheia de ideias e com a certeza de voltar a qualquer momento para uma pausa na utopia, desdenhosa de realidade, ao pé do balcão do CD-Bar de Jurandir.

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