CAÇADORA DE MIM Shellah Avellar

Me agito na cadeira.Ouço passos.O suor me inunda.Taquicardia.Respiração ofegante.Vou desfalecendo.

É ele! E vem se aproximando rapidamente. O monstro da Lagoa: o Pânico!

Será mais um ataque?Uma síndrome?Um medo de viver?

De viver? Ou de morrer em vida, sem motivo,sem perspectiva e sem esperança?

O caixa tilinta os alarmes das contas a pagar que se acumulam pelas escrivaninhas e estantes a me lembrar da dura realidade.

Os inúmeros certificados , apostilas de cursos ,cartas de referências ,seminários,especializações se empilham empoeirados nas pastas coloridas, modernas e organizadas de meu home-office.

Projetos engavetados descansam irrequietos , à espera de ação imediata.

Os prêmios conquistados jazem esquecidos pelas prateleiras de uma vida de workaholic ,perfeccionista e dedicada.

Num impulso ,contrato os  serviços de agências de emprego.

Os head-hunters me confundem .Meu curriculum vitae é excelente.”Um nível de excelência ímpar “,dizem.

Mas,para os empregadores, é muita experiência.Precisamos de alguém mais novo.Que precisa aprender conosco,”sem vícios”.

Ou ,”sua experiência multifacetada é altamente interessante ,mas precisamos de alguém mais técnico.”

Os jovens entrevistadores se pegam  sonolentos  com o meu “português”,sem expressões idiomáticas ou sem “a nível de “.

Ou simplesmente não retornam mais, assim como “Conceição,se subiu,ninguém sabe..ninguém viu…”

O desabrochar do individualismo reafirma o perfil do novo trabalhador: autônomo, flexível, capaz, competitivo, criativo, agressivo, qualificado e empregável. Estas habilidades o qualificam para a demanda do mercado que procura a excelência e saúde perfeita. Estar “apto” significa responsabilizar os trabalhadores pela formação/qualificação e culpá-los pelo desemprego, aumento da pobreza urbana e miséria, e impondo aos mesmos , a origem do verdadeiro significado de trabalho = tripalium, sinônimo de tortura.

A retirada mensal vai diminuindo a cada ano. Creio estar apta para a faxina.A começar pela limpeza da minha própria vida:Amassar os diplomas .Balançar o bum –bum nas baladas de cada dia.. Tomar energéticos.Me embriagar com “ices”.Colocar silicones. Fazer aplicações  de botox.Fazer uma tatoo tribal.

Malhar diariamente com o mais novo tênis de impacto. Frequentar os bares e restaurantes da moda.Fazer escovas progressivas.Luzes californianas.Unhas  multicoloridas.Rodar poraí num carro importado.Portar relógios rolex e cheirar aromas de griffe .

Fazer psicoterapia de grupo assistindo a reality-shows para reaprender a viver em sociedade  e trabalhar em equipe.

E “estar me especializando” (ou me gerundizando)em gestão de qualquer coisa. Ser politicamente correta.Me familiarizar com os dialetos do mercado.Entrar na “vibe” e destilar  veneno nos corredores .Puxar tapetes .Engrossar a agenda,fazendo “contatos imediatos”.Pegar BVs de clientes incautos.Adotar um sorriso de plástico e hastear para sempre a bandeira da hipocrisia.

Amigos me cobram o ânimo de ontem. A vitalidade de ante-ontem.Os sonhos abortados.A crença positiva de que tudo vai mudar.

No entanto, um suave relaxamento se apodera de mim e uma voz lá de dentro me desafia: ”Já tá na hora de programar um novo fim e acionar um recomeço digno de sua capacidade e liderança.”

Há  consciências que precisam ser abertas e que clamam por minha mão firme e passos resolutos.

Caminho em direção à porta com a convicção de que o mundo precisa de mim. Arrogância? Pretensão? Sei lá!

Uma força surda me impulsiona pra frente. Me faz saltar da cadeira.Corro para um parque próximo à procura de ar puro para me oxigenar.

Não hesito.Sigo em frente  com a certeza  de que cabe a mim ,só a mim,me resgatar.

O grito de guerra que escapa de meu peito ,queima as marcas da insatisfação  e acende as fagulhas da fé interna.

Por que ir ?  Pra onde ir? Como ir? Quando  ir?

Meus passos me levam a uma clareira. Olho para um céu límpido ,e, quero o chão. Mas, me deixo penetrar pela profundidade do éter que me engole e me transporta para além de mim.

Os redemoinhos das brancas nuvens me envolvem .Me deixo cair na maciez daquele colchão de nimbos,que anunciam um tempo bom..

Sei que tudo isso é passageiro. Talvez uma maneira de me alienar, me anestesiar do amargo “aqui e agora”.Não importa.Vou em frente!

Salto sem para- quedas.E caio em pé,como os felinos em suas sete vidas.Creio já ter gasto algumas ,nas agruras da caminhada um tanto extenuante.

Ainda assim,claudicando,trôpega,sigo em frente.

Não sinto mais os meus pés.Levito.Vôo.

Alcanço de novo as alturas  com a consciência de que sou responsável pela abertura de minhas asas rumo ao “presente”.

A urgência liberta a minha força e desata minha esperança  intrincada em  nós de marinheiro,tecidos nas dores das investidas passadas.

Suspeito de mim mesma.Será um sonho?Vertigem?

Não importa.Vou em frente!

Caminho.Respiro.Penso.Reflito.

Entretanto meus pensamentos não se fixam em nada. As imagens em flashes absurdos se sobrepõem ,à minha revelia,desbravando os porões de meu inconsciente em busca de soluções desesperadas.

Lá no fundo do meu poço encontro energias para reagir.

E,num salto,me recomponho.Aceito a dor e abraçada a ela ,busco as respostas..Uma voz dentro de minha cabeça insiste:

O sucesso é ilusório.O caminho é a luz.A viagem é o resultado.

O silêncio é o grito de amor por mim mesma ,que redesperta o canto dos pássaros pelas manhãs incontestes da natureza que derrama cheiros e brilhos que me remetem aos risos da minha infância que jamais se perdem.

O fio de Ariadne,que cada um de nós tece, é um tapete de pétalas  que vão colorindo nossos jardins pessoais.

E,vou em frente, deixando cair as pérolas que facilitam a “passagem “ para os incrédulos.

As leis da grande luz que espera pacientemente que acionemos o interruptor interno para religar a usina da anima, do moto- contínuo que é a pulsação dinâmica dos átomos e das células da criação.

Sou pólen,poeira e luz.Me entrego a meu destino com a certeza de ser instrumento da paz em meu entorno e dentro de mim.

Caçadora de mim, tento uma vez mais.

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