E O ARTISTA, O QUE É? shellAHAvellar

Dia de Vestibular. Primeira fase. Pais ansiosos. Filhos nervosos.Me misturo àquela massa heterogênea que se homogeneíza num átimo de apreensão e esperança.Toda a vida daquele ser desde a barriga até ali.Adolescente no limiar de decidir o trajeto de seu destino profissional.Humanas e Exatas se misturam numa gosma frágil, num último esforço de seqüestrar seus rebentos da placenta protetora.Descortina o filme em flashes relâmpagos de todo o investimento desta argamassa humana esculpida com” sangue ,suor e lágrimas “. Um congestionamento de emoções descontroladas que vomita e engole o coração centenas de vezes, numa fração de segundo. Deixo a filha na porta da sala de exames. Um abraço.Um consolo.Me viro.Um último olhar de incentivo.Sussurro: Lute até o fim!

Saio relutante.Me policio pra não olhar pra trás. Ainda quatro horas e meia de espera.Desço as escadas lentamente.Ganho a rua.Vejo os braços cruzados apertados contra o peito de todos querendo ainda embalar seus filhotes.Me junto à multidão como se num suspiro conjunto pudéssemos mais uma vez estar em seu lugar. Tensão no ar.Ouço os comentários.Um presta pra Direito.Outro, Medicina.Outra, Engenharia. Ninguém fala de ARTES. Literatura.Artes Visuais.Artes Cênicas .Música.Cinema.Quadrinhos..NADA! Tento me acalmar. Saio correndo dali.

Vou pro shopping. Arrisco um cineminha pra me distrair. Escolho um filme que se encaixe no horário da espera. O único: O Palhaço. Entro. Sento .Mãos suando.Fugitiva do óbvio. Começa o filme.Vou engulindo vorazmente quadro a quadro desta obra de arte genuinamente nacional. E os palhaços , quem são ? Paulo Jose (Puro Sangue) e Selton Mello (Pangaré) numa dobradinha genial de um circo mambembe que se escoa nos recônditos de Brasis afora. Cortadores de cana, caipiras astutos,delegados corruptos,prefeito oportunista,moçoilas sedutoras, prostitutas ingênuas,machões cornos, filósofos de beira de estrada, vão desfilando pelas estradas e trazendo o molho especial à composição do roteiro de precisão cirúrgica.

 

A família circense com o exotismo felinniano, sob a batuta do pobre e conflitado Benjamim, deprimido,cada vez mais Pangaré , com a ingrata tarefa de prover a todos. O anão, a cigana luxuriosa, o perna de pau, a bandinha ,os irmãos manhosos,a velha gorda espalhafatosa de peitos abundantes ,o negro armário”,o casal e a menina mimada por todos, compõem a sonoridade da sinfonia burlesca . A trajetória do simples. Do pobre .Do rôto.

Pangaré se cansa de tanta dificuldade. Quer ter identidade .Quer ganhar novas cores em outras paragens.Longe daquela rotina de prover sem proventos.O calor abrasador.O sonho de comprar um ventilador. Vai embora.Descobre a burocracia. A solidão do quarto de pensão.A desilusão amorosa.O patrão.O emprego.A carteira assinada.A vida à prestação.

Até que num jantar da empresa,o chefe conta piadas antigas .Todos riem.E, Benjamim finalmente abre um sorriso.Compra um ventilador.Pega um pau de arara .Volta pra casa.Redescobre o amor .E se redescobre como parte integrante daquela família bizarra.Pensa:”O gato bebe leite O rato come queijo e Benjamim é Pangaré.Pangaré é Palhaço.Gosta de ser palhaço.Nasceu pra ser palhaço.”

Termina o filme.Eu aplaudo(sozinha) sob o olhar estupefato e reprovador dos presentes. Na rusticidade do retrato de meu país.Do meu povo.

Do artista , “cujos olhos refulgem “a dor e a delícia de ser o que é.”, minha insegurança passageira readquire passos firmes e resolutos. E caminho, vitoriosa para a Universidade. Aguardo a carinha que carrega meu DNA artístico e toda a minha “maluquice-beleza “. Seus olhos aflitos me procuram.Me acham.Um abraço. – “Gostou? “Pergunto. “Amei.Sabe que até deu vontade de dar risada durante a prova?” Sorrio por dentro.De alguma forma, a persona da minha indagação reverberou em sua própria.Como se ambas estivéssemos ainda quaisquer dúvidas que precisassem ser definitivamente dissipadas em relação à carreira que ela quer abraçar.

E eu mesma me pergunto e me respondo : “E o artista ,o que é?” É ser todos e não ser nenhum.É ser nenhum em todos.Uma missão lírica.Despencar sonhos em cataratas.Uma viagem.Um ritual .Atordoamento.Lucidez de tons cinzentos.Sombras glitteradas.Renúncia e Glória.A rainha e o Corcunda.Vida como ela é.

www.opalhacofilme.com.br

http://www.jornalirismo.com.br/jornalismo/14/1346-o-artista-o-que-e

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